Está ficando muito difícil manter investimentos no Brasil e, pelos últimos acontecimentos, a tendência é piorar já que a solução é mais profunda do que podemos imaginar. Vou explicar de forma didática o que estou vendo.

Toda vez que você compra uma ação, um CDB, uma cota de fundo ou mesmo um título público, você está entregando dinheiro a pessoas que nunca viu, confiando que elas vão fazer o que prometeram fazer. Quando a sociedade deixa de valorizar a honra e para de sentir vergonha dos próprios vícios e debilidades, essa confiança passa a custar caro, e quem paga a conta somos nós, os pequenos investidores, na forma de custo de vida alto, ativos desvalorizados, moeda desvalorizada e insegurança.

O que você realmente compra quando investe

Um título público é uma promessa do Governo de pagar juros no futuro, uma ação é a promessa de que os empresários vão usar o capital em benefício de todos que compraram as ações, e uma cota de fundo é a promessa de que o gestor vai cuidar do seu dinheiro como se fosse dele. Em nenhum desses casos você consegue fiscalizar diretamente o que acontece com o seu capital, já que o dinheiro sai da sua conta e passa a depender do caráter de quem o recebe. Toda a estrutura de auditorias, agências reguladoras, conselhos fiscais e leis do Estado existe porque a experiência humana mostrou que o caráter das pessoas nem sempre é suficiente, embora essa mesma estrutura só funcione quando os auditores, os reguladores e quem trabalha no Estado também têm caráter. Quando a desonra deixa de ser motivo de vergonha na vida das pessoas, cada camada de proteção pode ser comprada, e o investidor descobre que a segurança dos investimentos só existe na teoria.

O mercado tenta precificar isso por meio do que os economistas chamam de prêmio de risco. Uma empresa que gera cem milhões de reais de lucro por ano vale cerca de um bilhão de reais quando o investidor aceita um retorno de 10% ao ano, e passa a valer pouco mais de 770 milhões quando o investidor exige 13% porque desconfia de quem administra o negócio. Esses três pontos percentuais de diferença representam quase um quarto do valor da empresa, e são pagos por todos os sócios, inclusive por aqueles que nunca fizeram nada de errado. A mesma lógica acontece quando você compra títulos públicos, pois exige juros maiores quando percebe que existe maior risco. A desonestidade de poucos funciona como um imposto cobrado de todos, na medida em que o investidor não consegue separar, de antemão, quem é honesto de quem é desonesto.

O banqueiro que aprendeu a comprar pessoas

Vamos pensar em um exemplo fictício. Imagine um banqueiro qualquer, em um país qualquer, que construiu a carreira descobrindo o preço de cada pessoa. Ele sabe que o fiscal de um órgão regulador ganha um salário fixo e tem uma vaidade que o salário não satisfaz, e por isso oferece a ele viagens e consultorias fictícias para parentes, além de acenar com um cargo bem remunerado para quando ele deixar o serviço público. O mesmo banqueiro hipotético sabe que certos políticos precisam de dinheiro para campanhas e que determinadas autoridades gostam de ser tratadas como amigas de gente poderosa, e cultiva essas relações com jantares e favores secretos. Só que o próprio banqueiro tem vícios que o tornam vulnerável, seja o gosto por luxuria, seja a incapacidade de aceitar que um negócio dele possa dar errado, sendo que essa vulnerabilidade o leva a corromper porque ele também já foi corrompido pela própria ambição desordenada e imoral.

Agora pense no que acontece com o banco desse homem imoral que estamos imaginando. Os empréstimos são concedidos a empresas de “amigos” sem análise séria de crédito, o balanço é maquiado para esconder a inadimplência, e a fiscalização que deveria detectar o problema recebe explicações convenientes de um fiscal que já não tem interesse em enxergar. Enquanto isso, o banco capta dinheiro dos pequenos investidores oferecendo um CDB que paga 120% do CDI, e milhares de pessoas aplicam acima do limite garantido pelo FGC porque a taxa parece boa e ninguém publicou nada de ruim sobre a instituição (a imprensa e muitos influenciadores recebem verbas publicitárias do banco hipotérico). Quando o esquema desaba, os primeiros a perder são exatamente esses poupadores, que descobrem que a vigilância pela qual pagavam, por meio de impostos e de taxas embutidas, havia sido comprada anos antes.

O dano vai além do banco quebrado. Depois de um episódio desses, o investidor passa a desconfiar de todos os bancos médios e das autoridades, o que obriga instituições honestas a pagar mais caro para captar dinheiro, e esse custo é repassado no juro do crédito para famílias e empresas. Quem financia um carro ou uma casa paga um pouco mais porque um banqueiro que nunca conheceu decidiu que a honra era um obstáculo ao enriquecimento e que a imoralidade poderia ser um caminho. A corrupção de um regulador, um político ou de um servidor público, que parece um problema distante, termina aumentando os riscos e prejuízos de quem investe e aumentando o custo de quem toma emprestado.

O empresário que trata o sócio minoritário como matéria-prima

O segundo personagem hipotético é um empresário que controla uma empresa listada na bolsa, ou um gestor que administra um fundo com bilhões de reais de pessoas físicas. Vamos imaginar que este empresário é com o banqueiro fictício que já descrevemos, ou seja, os fins justificam os meios, ele não se importa com a honra e a moralidade de seus atos. A empresa ou o fundo dele, listada na bolsa, contrata serviços de outra empresa que pertence à mulher dele, a preços acima do mercado, e o lucro que deveria ser dividido com todos os acionistas escoa para o patrimônio pessoal da família. Os imóveis da empresa pertencem aos seus familiares que cobram alugueis elevados. Já o fundo do gestor imoral cobra taxa de performance sobre resultados inflados por meio de marcação generosa de ativos sem liquidez, e quando o cotista descobre que os papéis valiam menos do que o relatório dizia, a taxa já foi paga e o gestor já comprou outra casa.

Esse homem tem uma teoria para justificar tudo isso. Ele acredita que o mercado é uma guerra, que o acionista minoritário é um passageiro que não merece as mesmas vantagens do piloto, e que a prudência, a justiça e a temperança são virtudes de quem não tem coragem de vencer. Ele confunde astúcia com inteligência e considera a falta de escrúpulos uma vantagem competitiva, porque nunca aprendeu, ou preferiu esquecer, que a virtude da justiça consiste em dar a cada um o que lhe é devido, e que os dividendo do minoritário ou os juros do investidor é devido tanto quanto o salário do funcionário. A ausência dessa virtude aparece como uma sequência de decisões que beneficiam o controlador e empobrecem os demais sócios, e o investidor que comprou a ação, cota do fundo ou uma debênture da empresa sofre as consequências por ter confiado.

Aqui aparece um mecanismo que prejudica até quem nunca investiu nessa empresa fictícia. Sempre tem alguém dizendo que a bolsa brasileira está barata. A bolsa brasileira negocia com um desconto permanente em relação a mercados onde a proteção ao minoritário é levada a sério, e esse desconto reduz o valor de todas as empresas, inclusive daquelas administradas por pessoas honestas. Uma empresa boa, administrada por uma família decente, vale menos na bolsa porque o investidor estrangeiro aprendeu que no Brasil o controlador pode se apropriar do que não é dele com poucas consequências. O empresário desonesto rebaixa o preço da empresa do empresário honesto, e nós, que investimos nas duas, pagamos por um risco que só uma delas apresenta.

O jornal que vende silêncio

O terceiro personagem pode ser um veículo de imprensa tradicional ou um influenciador com milhões de seguidores, já que o mecanismo é o mesmo. Ele recebe verbas publicitárias de governos, de estatais e de bancos que dependem de decisões políticas, e descobriu que essas verbas aumentam quando as notícias ruins ficam menores e as notícias boas ficam maiores. Quando o governo aumenta impostos, a manchete fala em “reequilíbrio fiscal”, e o mesmo redator, diante de uma explosão do gasto público, explica ao leitor que se trata de “investimento social”. Um escândalo envolvendo autoridades poderosas recebe dois dias de cobertura antes de o veículo mudar de assunto, ao passo que um deslize de um adversário do governo rende semanas de programação. O dono do veículo, ou o influenciador, dorme tranquilo porque convenceu a si mesmo de que apenas apresenta “outro ângulo”, sendo que o ângulo, por coincidência, sempre favorece quem paga.

O investidor sofre com isso. Você toma decisões de investimento com base nas informações que recebe, e quando as informações são filtradas para proteger interesses de quem anuncia, você investe mal. Quem confiou em relatórios otimista sobre a situação fiscal comprou títulos prefixados ou indexados ao IPCA longos na véspera de uma disparada dos juros, e viu o preço desses títulos cair 20% ou 30% em poucos meses. Quem acreditou que determinada estatal era bem administrada, porque a imprensa repetia isso, perdeu dinheiro quando o rombo apareceu. A informação verdadeira é a matéria-prima de qualquer decisão de investimento, e uma imprensa (e influneciadores) que vende silêncio funciona como um fornecedor que entrega matéria-prima adulterada.

A lama se espalha sozinha

Minha opinião, formada depois de muitos anos observando o comportamento das pessoas com dinheiro, é que todos nós temos uma tendência original ao vício e ao mal. Essa tendência funciona como lama em um terreno inclinado, porque ela se espalha por inércia, sem que ninguém precise empurrá-la, bastando que não exista uma parede firme no caminho. O funcionário público que aceita o primeiro presente pequeno apenas deixou de decidir ser honesto naquele dia, e a lama faz o resto ao longo dos anos. O gestor que infla um pouco o resultado do fundo em um mês difícil está adiando uma verdade desconfortável, e no ano seguinte essa verdade ficou grande demais para ser dita, já que admiti-la agora significaria admitir também a mentira anterior. A decadência moral acontece por uma sequência de pequenas omissões que ninguém sentiu vergonha de cometer, e cada omissão torna a seguinte mais fácil.

A única coisa que interrompe esse deslizamento é uma vontade deliberada de ser honrado mesmo quando ninguém está vendo. Essa vontade precisa vir de algum lugar, porque a razão sozinha, quando confrontada com uma vantagem grande e um risco pequeno de punição, tende a encontrar justificativas para o vício. O homem que acredita que existe uma lei natural acima das leis humanas, e que essa lei foi estabelecida por um Deus que enxerga o que os órgãos de regulação dos homens não enxerga, tem um motivo para ser honesto que independe de quem está olhando. Ele deixa de subornar o fiscal porque considera o suborno uma ofensa vergonhosa a algo maior do que ele mesmo, e sente vergonha diante dessa ofensa antes de pensar em qualquer consequência jurídica.

No passado, a cultura, a escola, a família e a própria sociedade brasileira transmitiam essa visão de mundo quase sem esforço, porque o país era predominantemente cristão e a moral cristã organizava até a vida de quem não frequentava igreja. O comerciante que enganava o cliente era mal visto na cidade, o político corrupto tinha que esconder o enriquecimento, e o homem ou a mulher que abandonava a família perdia a consideração dos amigos e vizinhos. Hoje esses meios externos deixaram de oferecer esse sustento moral, e quem quiser uma parede firme contra a lama precisa buscá-la por conta própria, na tradição religiosa que formou a civilização em que vivemos. Por isso digo que a visão de mundo religiosa precisa ser procurada ativamente, já que ela não vem mais de graça com a educação e a cultura. A grande verdade é que ela tem sido constantemente combatida, perseguida e criminalizada.

O que é secularização e por que ela afeta sua vida financeira

Secularização é o nome que se dá ao processo pelo qual a sociedade retira a religião (que fundou esta sociedade ocidental) do centro da vida pública e a transforma em um assunto privado, que cada pessoa pode adotar ou descartar sem que isso tenha qualquer peso nas decisões coletivas. No início, esse processo prometia libertar o homem de uma vida virtuosa (ser virtuoso exige esforço e sacrifício) e entregá-lo a uma racionalidade capaz de resolver todos os problemas por meio da ciência, da técnica, da burocracia e do progresso material. A promessa era que o homem, desconectado de qualquer princípio cristão, seria capaz de fazer o bem, o belo e o justo apenas por decisão própria, guiado pela razão e pelo interesse bem compreendido. Essa promessa secular é a matriz da modernidade. Nasce no Iluminismo liberal, toma corpo na Revolução Francesa e se desdobra, por radicalização materialista e coletivista, nos espectros do esquerdismo, do socialismo e do comunismo.

Duzentos anos depois, temos mais riqueza material do que qualquer geração anterior, e ao mesmo tempo temos uma sociedade em que um banqueiro compra um juiz com a consciência serena, o juiz se deixa corromper com muita facilidade como se isso fosse algo  justo, e o empresário ou o gestor de um fundo engana o cotista com a mesma tranquilidade, porque a consciência deixou de ter um padrão externo com o qual se comparar.

A primeira e a segunda guerras mundiais foram os primeiros grandes resultados de uma Europa que havia decidido substituir Deus pela confiança na capacidade humana de organizar o mundo de forma racional e materialista. As nações mais educadas e industrializadas do planeta, aquelas que mais orgulho tinham da própria ciência, produziram, em trinta anos, a maior matança da história da humanidade, com tecnologias que a razão desenvolveu e ideologias que a razão justificou. Quem acreditava que o progresso material tornaria as pessoas melhores recebeu uma resposta em forma de trincheira e campo de concentração. O mesmo padrão se repete no mercado financeiro, na política e na economia dos países, porque quanto mais recursos, mais tecnologia e mais sofisticação temos, mais elaboradas se tornam as fraudes, e mais difícil fica para o pequeno investidor distinguir o negócio legítimo do esquema bem embalado.

Essa é a razão pela qual mesmo quem não é cristão deveria se preocupar com a secularização. O processo civilizatório do Ocidente, incluindo o direito de propriedade e a noção de que um contrato obriga quem o assinou, nasceu dentro da tradição cristã e foi sustentado por ela durante séculos. É possível viver por algum tempo com o capital moral acumulado pelas gerações anteriores, da mesma forma que é possível viver por algum tempo gastando a poupança dos pais, mas esse capital acaba. Quando ele acaba, o que sobra é a barbárie com celular na mão, uma sociedade cheia de tecnologia e vazia de freios morais, em que cada pessoa persegue o próprio interesse sem nenhum freio interno, e em que o único limite ao vício é a probabilidade de ser pego.

Por que os princípios fariam diferença

Imagine se as pessoas voltassem a temer a Justiça Divina, aquela que está vendo tudo que fazemos até quando estamos sozinhos. A vergonha e o medo da justiça divina, que hoje parece um sentimento antiquado, é uma das ferramentas mais poderosas que uma civilização tem para conter o vício, e uma sociedade que a perdeu precisa substituí-la por juízes, auditorias e prisões, que custam mais caro e funcionam pior, já que vigiam o ato e deixam intacta a intenção.

O que entendemos como mal, na maior parte das vezes, é a rendição do homem àquilo que ele tem de mais animal, como a gula que, aplicada ao dinheiro, vira ganância sem limite, ou a soberba que convence o poderoso de que as regras existem apenas para os outros. A tradição cristã sempre ensinou que o homem se torna mais humano na medida em que domina esses apetites, e mais miserável e escravizado na medida em que se deixa dominar por eles, sendo que essa miséria da alma independe o dinheiro que possuem. O banqueiro fictício do nosso exemplo pode ter bilhões e ser um miserável, assim como aqueles que ele corrompe, no sentido exato de alguém escravizado por vícios que o impedem de conhecer a paz de quem nada tem a esconder. O pequeno investidor que dorme tranquilo com um patrimônio modesto e a consciência limpa é, em termos que a modernidade esqueceu, um homem mais rico do que ele.

Investir bem depende de disciplina e de paciência, mas depende antes disso de um ambiente em que as promessas sejam cumpridas, e esse ambiente só existe quando as pessoas ainda sentem vergonha de quebrá-las. A secularização retirou da sociedade a fonte que sustentava essa vergonha, e a substituiu por uma confiança na razão e no progresso material que vem produzindo, na política e no mercado, exatamente o oposto do que prometia. Cada um de nós pode decidir, hoje, ser uma parede firme contra a lama, começando pela própria vida, pela própria família e pelo próprio negócio, e essa decisão, multiplicada por milhões, é a única reforma capaz resolver os problemas.

Um país em que ninguém tem vergonha é um país em que ninguém pode confiar em ninguém, e onde ninguém confia, tudo se torna mais difícil e todos juntos caminham para a miséria e o caos.

Last Updated: 16/09/2026Published On: 16/09/2026Categorias: Artigos