
Em tempo de eleição, muita família brasileira vira campo de batalha, com almoço de domingo cancelado, grupo de WhatsApp silenciado e amizade de vinte anos esfriando por causa de uma discussão sobre política. Imagino que a maioria de vocês, leitores do Clube dos Poupadores, conheça de perto algum parente ou amigo que foi sequestrado pela mentalidade de esquerda e que já não consegue conversar sobre dinheiro, trabalho ou impostos sem transformar tudo em acusação. Escrevo hoje para recomendar um livro, que eu li em 2023, e que me deu uma chave de leitura para esse desgaste, Livro: A Mente Esquerdista, do psiquiatra americano Lyle H. Rossiter Jr.
Liberal nos Estados Unidos quer dizer esquerdista
O título original é The Liberal Mind: The Psychological Causes of Political Madness, e a palavra liberal ali tem o sentido que o americano lhe dá desde o século XX, o de quem defende um Estado grande, redistribuição de renda por meio de impostos e programas sociais e uma agenda progressista. Aqui no Brasil, liberal é quem defende mercado livre, propriedade privada e governo limitado, o que corresponde ao que Rossiter chama de liberalismo clássico. Por causa dessa troca de sentidos, a tradução brasileira acertou ao usar o termo “esquerdista”, já que o leitor que procurasse “a mente liberal” nas livrarias poderia entender o contrário do que o autor quer dizer.
O que o autor propõe
Rossiter é psiquiatra e passou décadas atendendo pacientes e atuando em casos forenses nos Estados Unidos, o que dá ao livro um ponto de partida diferente do habitual entre analistas políticos, porque ele observa a política com o vocabulário de quem estudou o desenvolvimento emocional de crianças e adultos.
A tese central sustenta que uma parte considerável do pensamento esquerdista nasce de um amadurecimento emocional incompleto, de modo que a pessoa chega à vida adulta ainda esperando que alguém poderoso cuide dela, resolva seus problemas e responda pelos seus fracassos.
Segundo o autor, esse alguém acaba sendo o governo, na medida em que o político de esquerda oferece exatamente o papel de pai e mãe que o eleitor emocionalmente dependente procura.
Para Rossiter, o adulto maduro é aquele que sustenta a si mesmo, toma as próprias decisões, aceita as consequências delas e respeita o mesmo direito nos outros.
Uma sociedade livre depende de gente assim, porque o liberalismo clássico parte do princípio de que cada pessoa é capaz de cuidar da própria vida sem tutela permanente.
Quando uma parcela grande da população não desenvolveu essa capacidade, a promessa de proteção estatal passa a soar como necessidade, e o debate político deixa de ser sobre como organizar um país de adultos livres.
O governo no lugar de pai e mãe
O livro descreve a esquerda moderna como um movimento que trata o cidadão como vítima de forças que ele não controla e que, por isso, precisaria de amparo permanente do governo e de seus políticos.
Quem espera que o governo garanta a sua renda acaba aceitando que o mesmo governo decida quanto do seu salário fica com você, e Rossiter dedica boa parte da obra a mostrar como cada nova garantia estatal amplia a dependência de quem a recebe e reduz a liberdade de quem paga a conta.
Ele chama esse arranjo de Estado protetor, e a discussão sobre o tamanho dos impostos ganha outra dimensão quando se percebe que, para muitos eleitores, o debate envolve a necessidade emocional de ter alguém tomando conta.
Ressentimento e a busca por culpados
Na leitura do autor, a pessoa que carrega ressentimentos antigos tende a projetá-los em alvos coletivos, de modo que o patrão, o empresário e o pai de família passam a receber uma raiva que talvez pertença a conflitos muito mais antigos.
Isso ajuda a entender por que apresentar dados e argumentos a um parente nessa condição quase nunca muda a forma como ele pensa, já que a posição política dele cumpre uma função emocional, e a função emocional não se desfaz com argumentos racionais.
A lógica continua valendo para quem a usa, mas ela pesa menos do que o alívio de ter um culpado externo para tudo que deu errado.
Rossiter defende que a responsabilidade pelas próprias escolhas é o que faz uma pessoa amadurecer, e que programas desenhados para eliminar as consequências dessas escolhas mantêm o beneficiário na posição de dependente.
A família ocupa um lugar central nessa visão porque é ali que a criança aprende a lidar com limites, frustração e autoridade, sendo que o ataque à autoridade dos pais e à estrutura familiar tradicional aparece no livro como um dos efeitos mais danosos da mentalidade esquerdista. Quem já viu um sobrinho adulto de trinta anos esperando que a família resolva a vida dele reconhece o padrão sem precisar de muita teoria.
Esquerdista por conveniência e esquerdista fragilizado
Esta é a parte do livro que mais ajuda a reduzir a raiva em casa contra seus parentes e amigos, porque existem dois grupos bem diferentes sob o mesmo rótulo.
O primeiro grupo é o esquerdista por conveniência sabe o que faz, já que ganha mandato e cargo ao oferecer ao eleitor aquilo que ele quer ouvir, e com esse não adianta debater, pois o interesse dele não depende de você ter razão.
O segundo grupo reúne pessoas com pouca instrução, com histórico de abandono ou com fragilidade emocional real, que passaram a vida sem encontrar apoio e se agarram a quem promete protegê-las, e Rossiter chama atenção para os líderes que enxergam essa carência e a exploram eleitoralmente.
Exemplos de pessoas fragilizadas: Pessoas em pobreza persistente, desempregados de longa duração, pessoas criadas em lares marcados por abandono ou violência, idosos com aposentadoria muito baixa, moradores de cidades pequenas onde o governo é o principal empregador, pessoas com baixa escolaridade e pouco acesso a informação, dependentes de benefícios sociais para a renda básica, pessoas isoladas, sem rede de apoio familiar ou comunitário. Entre estas pessoas ainda temos aquelas com problemas psicológicos e psiquiátricos.
Saber discernir entre os dois muda a maneira de agir. O primeiro merece distância e cautela, porque ele usa a conversa como instrumento. O segundo merece paciência, já que ele é, em boa medida, vítima de quem o manipula.
Muita gente também chega a posições de esquerda por criação familiar ou por leitura, muitas vezes imposta, por escolas e faculdades que propagam ideologias de esquerda.
O que fazer na prática
Se o seu irmão pede R$ 3.000 emprestados pela terceira vez no ano e explica que a culpa é do sistema capitalista, o livro sugere que a ajuda sem nenhuma contrapartida mantém o problema no mesmo lugar. Você pode oferecer algo que preserve a autonomia dele, como sentar com ele para montar um orçamento mensal ou indicar um curso, e recusar o dinheiro sem sentir culpa por isso.
Quanto às discussões políticas, evite o grupo da família no WhatsApp, onde cada mensagem é lida por vinte pessoas e ninguém muda de opinião diante de plateia. A conversa individual, sobre assuntos concretos como o custo de vida e a escolha entre gastar e poupar, rende muito mais do que qualquer debate sobre candidato.
Onde comprar o livro
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