Existem muitos ensinamentos para você neste relato: Um jovem de 30 anos chegou a ganhar nos Estados Unidos o equivalente a R$ 35 mil por mês entregando pizza, e hoje está recomeçando a partir do zero. Ele trabalha em um supermercado no Brasil ganhando salário mínimo, devendo R$ 120 mil. Ele descreve sua tragédia, assume seus erros e não se vitimiza.

Existe um motivo para eu dedicar um artigo inteiro a esse depoimento. Os antigos já diziam que o homem sábio aprende com os erros dos outros, enquanto o tolo precisa sofrer na própria pele para aprender, sendo que muitos sofrem e nem assim aprendem. Cada minuto desse vídeo custou ao rapaz anos de trabalho desperdiçado, uma dívida que ele não sabe como pagar, a saúde comprometida e a dignidade de recomeçar do zero aos 30 anos, ao passo que a você o mesmo aprendizado custará apenas 14 minutos de atenção e a humildade de reconhecer que os erros dele são mais comuns do que parecem. É o negócio mais assimétrico que conheço, pois você recebe a lição inteira sem pagar o preço dela.

Ele mesmo gravou um vídeo contando como chegou a essa situação, e recomendo que você assista antes de continuar a leitura, porque os comentários que farei a seguir dependem do relato completo.

Agora veja algumas anotações que fiz sobre o que podemos aprender com essa história.

A liberdade de vender suas horas

O rapaz conta que nos Estados Unidos trabalhava por hora, chegando a 85 horas semanais, e que essa liberdade de vender quantas horas quisesse foi justamente o que permitiu a um entregador de pizza faturar de 6 a 7 mil dólares por mês. Ninguém o obrigava a trabalhar tanto. Ele escolhia, porque via o dinheiro entrando e porque naquela fase da vida tinha juventude, disposição e um projeto, ainda que mal executado, de crescer.

No Brasil essa liberdade simplesmente não existe para quem tem carteira assinada, já que a CLT limita a jornada e trata como infração o acordo voluntário entre um adulto que quer vender mais horas e um empregador disposto a comprá-las. O resultado prático dessa proibição é que o brasileiro jovem, saudável e ambicioso, que poderia concentrar dez anos de esforço em cinco, precisa recorrer ao segundo emprego informal, ao bico de fim de semana ou ao pequeno negócio próprio para fazer o que o americano faz como parte da estrutura trabalhista deles.

Os dados da PNAD Contínua do IBGE mostram consistentemente cerca de 40% da força de trabalho na informalidade, e uma parte disso é gente que foi empurrada para fora do sistema por regras criadas, em tese, para protegê-la. O político que proíbe o trabalhador de vender suas próprias horas se apresenta como protetor, quando na prática está confiscando do jovem a fase da vida em que ele tinha mais energia para converter esforço em patrimônio.

Felizmente, quando fui jovem, percebi esse problema rapidamente. Pedi demissão da empresa onde trabalhava, abri uma pequena empresa e passei a prestar serviços para o meu antigo patrão e busquei prestar serviços para várias empresas ao mesmo tempo. Sim, eu cheguei a trabalhar mais de 85 horas semanais para entregar os serviços dentro do prazo, minha remuneração era por projeto entregue, e foi a melhor decisão que tomei. Eu sabia que aquele sacrifício era temporário e se tratava de uma janela de oportunidade.

Quem entende o projeto da independência financeira sabe que existe uma janela, geralmente entre os 18 e os 30 anos, em que o corpo aguenta jornadas pesadas e as obrigações familiares ainda são menores. Trabalhar intensamente nessa janela, poupando a diferença, encurta décadas do caminho. O rapaz do vídeo teve acesso a essa janela escancarada e, como veremos, desperdiçou o que passou por ela.

Dinheiro bom em emprego ruim

Em determinado momento o jovem diz que confundiu o dinheiro bom com o emprego ruim, e essa frase vale o vídeo inteiro. Entregar pizza 85 horas por semana, sem férias durante seis ou sete anos, é objetivamente um trabalho duro e sem futuro, mas que pagava três vezes o salário que ele teria em qualquer ocupação equivalente no Brasil. Um emprego assim tem função de trampolim, porque serve para acumular capital rapidamente e depois ser abandonado, e jamais deveria ser tratado como situação permanente.

Se ele tivesse poupado metade dos 6 mil dólares mensais durante seis anos, teria acumulado 216 mil dólares antes de qualquer rendimento, o que hoje passa de R$ 1 milhão. Mesmo poupando um terço, teria voltado ao Brasil com patrimônio suficiente para comprar um imóvel à vista no interior e ainda montar uma carteira de investimentos gerando renda ou abrir um negócio. Ele voltou devendo R$ 120 mil e poderia ter retornado com seu primeiro milhão. A diferença entre esses dois destinos não estava no salário, que era o mesmo nos dois cenários, e sim naquilo que ele fazia com o salário depois de recebê-lo.

Existe uma diferença moral profunda entre o sacrifício temporário que planta e o sacrifício que apenas consome. O imigrante que divide quarto, come simples e guarda 60% do que ganha está sofrendo com propósito, porque cada mês difícil compra anos de tranquilidade futura. O rapaz sofreu as mesmas 85 horas semanais, o mesmo cansaço e a mesma ausência de férias, mas converteu tudo isso em aluguel de apartamento bom, carro melhor e consumo imediato. Sofreu o custo inteiro do sacrifício e jogou fora o benefício.

Riqueza é patrimônio acumulado, e ele acreditou que era renda gasta

O erro de raiz aparece quando ele confessa que sempre quis crescer na vida e achou que crescer era gastar. Foi melhorando de carro e de apartamento conforme a renda subia, num processo que os economistas chamam de inflação do estilo de vida e que eu prefiro chamar pelo nome antigo, que é viver de aparências. Ele mesmo resume com honestidade ao dizer que quem vive igual americano nos Estados Unidos não guarda nada, porque o padrão de consumo local foi desenhado para absorver qualquer renda, por maior que seja.

A regra que ele descobriu tarde demais serve para qualquer lugar do mundo. Para sobrar dinheiro, é preciso viver abaixo do padrão que a sua renda permitiria no lugar onde você está, e quanto maior a distância entre o que você ganha e o que você aparenta ganhar, mais rápido o patrimônio cresce. Isso é um sacrifício temporário. O servidor público, pequeno empresário ou um médico brasileiro que ganha R$ 40 mil e gasta R$ 39 mil está na mesma esteira rolante do entregador de pizza que ganhava 6 mil dólares e gastava 6 mil dólares, sendo que ambos acordam todo dia primeiro do mês valendo zero. A renda alta sem poupança produz apenas uma pobreza mais confortável e mais bem vestida.

E há um detalhe do relato importante. Ele conta que tinha um dinheirinho guardado para um imprevisto pequeno, mas que um imprevisto grande o quebraria, e foi exatamente um imprevisto grande que veio. A reserva de emergência insuficiente é quase pior do que reserva nenhuma, porque dá ao seu dono uma falsa sensação de segurança que o autoriza a correr riscos que ele não tem estrutura para absorver.

Paixão, casamento e as piores decisões financeiras da vida

A parte mais dura do vídeo começa quando entra o relacionamento. Ele namorava uma americana que prometeu ajudá-lo com a cidadania, e a partir daí tomou uma sequência de decisões que nenhum homem tomaria de cabeça fria e com base na razão. Pagou multa para quebrar o contrato do apartamento onde acabara de entrar, perdendo a entrada de 7 mil dólares, vendeu seus bens pela metade do preço, pagou passagens de última hora para os pais, comprou alianças, casou dois meses depois da decisão e se endividou para bancar tudo isso, apostando o pouco que tinha num casamento que durou três meses até ela decidir terminar do nada, ficando ele com as dívidas e ela com a casa.

Os antigos povos, de diversas culturas, tratavam a paixão como doença do corpo e do espírito, e os gregos a descreviam como uma espécie de possessão capaz de suspender a razão, sendo que a experiência de milhares de anos confirma que homem apaixonado toma decisões de qualidade comparável às de um bêbado.

A visão moderna do amor romântico (paixão) como algo essencialmente positivo e desejável é recente; para os gregos e diversos povos antigos, a paixão intensa era encarada com desconfiança, medo e tratada formalmente como uma alteração patológica do estado mental. Quem já se apaixonou e cometeu erros, sabe disso na prática. Infelizmente os jovens não são orientados com relação a essa realidade. No pensamento grego, a paixão era frequentemente atribuída à um tipo de possessão, como a que o cristão chama de possessão demoníaca, principalmente por entidades como Afrodite, seu filho, Eros e Ate (a deusa da ilusão e ruína). A pessoa não “decidia” se apaixonar; ela era “atingida” ou “possuída” por essa força maligna que tinha o objetivo de enganar e depois destruir. Quando o cristianismo se consolidou no Império Romano, os teólogos católicos assimilaram essa percepção grega de perda de controle racional e possessão por paixões carnais. O que os gregos atribuíam a uma possessão de Ate (a deusa da ilusão e ruína), a teologia cristã passou a associar às tentações, enxergando na paixão descontrolada uma vulnerabilidade espiritual que afasta a pessoa do discernimento moral e da razão.

A modernidade riu dessa sabedoria antiga e a substituiu pelo romantismo de cinema, que ensina que a emoção intensa é o fundamento legítimo do casamento, quando todas as civilizações que já pisaram nesta Terra trataram o matrimônio como um ato sagrado, ordenado à fundação de uma família e sustentado pelo sacrifício mútuo dos cônjuges, precisamente porque sabiam que a emoção intensa é o material mais instável que existe para construir qualquer coisa.

O caso do vídeo é ainda mais instrutivo porque o casamento não era nem romântico, era utilitário dos dois lados. Ele buscava a cidadania e ela certamente buscava alguma coisa também, e um contrato fundado em duas conveniências se desfaz assim que uma das conveniências desaparece. As estatísticas do Registro Civil do IBGE mostram no Brasil o mesmo fenômeno que destruiu o rapaz nos Estados Unidos, com casamentos cada vez mais tardios e divórcios cada vez mais rápidos, porque o casamento estético, romantizado e infantilizado costuma durar apenas o tempo necessário para a paixão se diluir. Quando o casamento era sagrado, ele fundava patrimônios que atravessavam gerações. Reduzido a evento estético “instagramavel” com data de validade emocional, ele virou um dos maiores destruidores de riqueza que existem.

A lição prática não exige que você concorde com toda a minha visão sobre o matrimônio. Basta reconhecer que decisões irreversíveis e financeiramente pesadas jamais devem ser tomadas sob emoção intensa e fora da coerência e da razão.

A virtude de assumir a culpa

Aqui o rapaz me surpreendeu positivamente. Ele reconhece que a mulher o prejudicou (não conhecemos a versão da mulher), mas afirma na sequência que a responsabilidade maior foi dele, porque se tivesse dinheiro guardado teria saído machucado do episódio, e não destruído. Essa frase revela um caráter em recuperação, já que o caminho fácil seria construir uma história de vítima em que toda a culpa recai sobre a americana que o enganou (ela também pode ter sido vítima de uma paixão desordenada), e permanecer no lugar confortável de quem nada podia fazer diante das circunstâncias.

O vitimismo é confortável justamente porque isenta de ação. Quem se declara vítima exclusiva das circunstâncias assina, sem perceber, uma declaração de impotência, pois se a culpa é toda dos outros, a solução também depende toda dos outros, e a pessoa fica esperando uma reparação que nunca vem. Quem assume a própria parcela de culpa recupera no mesmo ato o poder de agir, porque erros próprios podem ser corrigidos pelo próprio esforço. A honestidade de reconhecer o erro é o único solo onde um recomeço consegue criar raiz, e é por isso que a confissão sincera precede qualquer conversão verdadeira, tanto na vida espiritual quanto na financeira.

Aos 30 anos, a urgência que deveria ter chegado aos 20

Ele repete que não pode mais errar, que não tem mais para onde correr, e essa urgência está correta, embora tenha chegado com dez anos de atraso. A juventude oferece uma sequência de janelas que não reabrem, na qual o corpo aguenta o que depois não aguentará, o custo de vida pode ser mantido baixo sem constrangimento e os erros ainda cabem dentro do tempo disponível para corrigi-los. O jovem que atravessa essa fase trabalhando muito, poupando agressivamente e acumulando conhecimento chega aos 35 ou 40 podendo desacelerar, enquanto o que a atravessa consumindo tudo chega aos 40 obrigado a acelerar num corpo que já pede descanso.

O relato prova que recomeçar aos 30 é possível, e o rapaz está recomeçando com coragem admirável, mas prova também o preço do recomeço. A saúde dele cobrou primeiro, quando chegou a 160 quilos e passou a vomitar de pressão alta sem poder pagar um médico, e depois veio a conta da dignidade, porque morar três meses dentro de um carro e voltar ao Brasil devendo dinheiro aos pais que lhe deram o que não tinham deve ser difícil. Tudo isso era evitável, e é exatamente por ser evitável que estou escrevendo este artigo para você, que talvez ainda esteja dentro da janela.

Família, humildade e fé como âncoras do recomeço

Observe o que sustentou o rapaz quando tudo ruiu. A casa dos pais o recebeu de volta, como a parábola do filho pródigo. A reconexão com a família devolveu alguma dignidade e paz depois de anos de distância, e ele menciona explicitamente que, se Deus quiser, vai sair da situação em que se colocou. Ele aceitou sem soberba um emprego de salário mínimo enquanto cursa uma faculdade de ciência de dados, e mora numa kitnet compatível com o que ganha, já com um plano concreto de aprender edição de vídeo para aumentar a renda, o que mostra um homem que trocou a fantasia pela realidade. Essa troca é sempre o primeiro passo de qualquer reconstrução.

Chama atenção o desejo dele de devolver o dinheiro aos pais antes de qualquer outra coisa. O mandamento de honrar pai e mãe existe há milênios porque a família é a primeira e mais confiável rede de proteção que um homem possui, muito anterior a qualquer programa de governo e muito mais eficaz, sendo que quem a honra nos tempos bons a encontra de portas abertas nos tempos maus. O Estado prometeu substituir essa função e cobrou caro pela promessa, mas quando o rapaz quebrou do outro lado do mundo, quem apareceu foi o pai e a mãe.

O fracasso foi a falta de duas virtudes

Reduzida à essência, a história desse jovem conta a ausência de temperança e de prudência, as duas virtudes cardeais que a tradição católica ensina há dois mil anos e que qualquer plano de independência financeira pressupõe, ainda que os livros de finanças as chamem por nomes modernos como disciplina de gastos e gestão de risco. A temperança teria segurado o consumo enquanto a renda era alta, e a prudência teria impedido a aposta total num casamento de dois meses. A renda extraordinária que ele conquistou nos Estados Unidos apenas mascarou a indisciplina durante alguns anos, porque dinheiro entrando em grande volume tende a esconde qualquer defeito de caráter financeiro, até o dia em que para de entrar e o defeito aparece inteiro.

A modernidade amplifica a falta de virtudes, porque oferece crédito fácil a quem não tem temperança e trata como descartável o vínculo que exigiria prudência, mas seria um erro culpar a época pelo que nasce dentro do homem. A causa do fracasso dele, e de tantos fracassos parecidos que recebo em relatos de leitores, é a emoção desordenada que prioriza o imediato sobre o permanente, e contra ela só existe virtude cultivada dia após dia, decisão após decisão.