
Um homem de 87 anos que recebe mais de um milhão de reais por dia em dividendos foi chamado de covarde e apelidado de “o cara mais rico do cemitério” por pessoas que construíram uma fração mínima do que ele construiu. A acusação é sempre a mesma, a de que bilionário Luiz Barsi não sabe viver, não gasta o que tem e não aproveita a vida. Eu acho que essa acusação revela muito mais sobre quem acusa do que sobre o Barsi ou qualquer investidor que escolhe uma vida simples, e é exatamente isso que eu quero destrinchar com você neste artigo.
Antes de continuar, assista ao vídeo
O que motivou esse texto foi a resposta da filha do Barsi a uma série de críticas que viralizaram, como depois de uma conversa entre o Barsi e o Tcar, dono de uma loja de carros de luxo, e de comentários de outros influenciadores como o Renato Cariani, empreendedor da área do fisiculturismo. Antes de você seguir lendo, vale clicar e assistir, porque eu vou comentar trechos específicos do que foi dito e fica muito mais rico se você tiver visto a cena com seus próprios olhos.
Assistiu? Então vamos conversar, porque por trás dessa polêmica existe uma pergunta que todo poupador deveria responder para si mesmo antes de investir, que é a pergunta sobre onde mora a sua felicidade.
Existe felicidade que se compra e felicidade que se conquista
A primeira coisa que pulou aos meus olhos no vídeo foi que os críticos do Barsi partem todos do mesmo lugar, de um modelo de felicidade fundado naquilo que o dinheiro permite consumir.
Quando alguém diz que o Barsi vai ser “o mais rico do cemitério”, essa pessoa está confessando, sem perceber, qual é a régua que ela usa para medir uma vida bem vivida, porque para ela viver bem é traduzir patrimônio em carro de luxo, em viagem de ostentação, em jantar caro, em coisa que se mostra aos outros (e que nem sempre as pessoas realmente gostam de viver).
O problema não está em gostar de um bom jantar ou de uma viagem para um lugar específico, já que esses prazeres são legítimos e o próprio Barsi os teve, conforme a filha conta que cresceu numa casa onde experiências importavam mais que objetos e que ele a levou em dezenas de viagens internacionais. O problema aparece quando esse prazer deixa de ser um “tempero da vida” e vira o sentido principal da vida, quando a pessoa organiza a sua existência inteira em torno da próxima compra que vai entregar a próxima dose de prazer compartilhado com estranhos em uma rede social.
Pense no colega de trabalho que recebe um aumento de quatro mil reais e, em vez de transformar parte disso em patrimônio que pode garantir um futuro mais livre, financia um carro mais caro que come seu aumento salarial em parcela durante vários anos. No fim daquele aumento que parecia uma conquista, sobra uma dívida grande e a sensação de novidade dura poucos meses, até o carro virar paisagem e a vontade migrar para o próximo objeto.
Esse é o motor da esteira hedônica, em que cada prazer comprado eleva a sua linha de base (novo normal) e exige um prazer maior na vez seguinte só para você sentir o mesmo tanto, de modo que a felicidade comprável tem essa característica cruel de exigir reposição contínua e de nunca acumular. Nota: o hedonismo é semelhante a uma religião oculta, que as pessoas praticam sem perceber, que considera a busca pelo prazer e a evitação do sofrimento como o objetivo supremo da vida e a base da moralidade.
A ostentação é ainda pior que o consumo, porque terceiriza o controle da sua alegria
Dentro desse universo do consumo existe uma camada mais frágil ainda, que é a ostentação. Quem compra um carro de luxo pelo prazer de dirigir um carro de luxo ao menos extrai do bem aquilo que o bem entrega de fato, mas quem compra para que os outros vejam está atrás de outra coisa, está atrás da inveja alheia e da sensação de superioridade que vem de possuir algo que poucos possuem. E aqui mora uma armadilha que nem todo mundo percebe, porque essa pessoa entregou a chave da própria felicidade para uma plateia de estranhos que não tem compromisso nenhum com ela, já que se a admiração dos outros não vier, ou se aparecer alguém com um carro melhor, a alegria simplesmente desaba. É uma felicidade alugada, que depende do olhar do vizinho e que se desfaz no instante em que o vizinho desvia o olhar ou compra algo superior.
Repare como isso aparece na fala dos críticos do Barsi. Quando dizem que a vida dele não inspira, que é uma vida “muito escassa”, eles estão medindo a vida de um bilionário pela quantidade de coisas visíveis que ele exibe, e como ele exibe pouco, concluem que ele tem pouco a oferecer. Essa conclusão só faz sentido para quem realmente acredita que o valor de uma pessoa se lê nos objetos que ela carrega.
O que o Barsi faz é trabalho, e não sorte nem jogatina
Aqui chegamos no ponto que mais me interessa, porque a felicidade do Barsi vem de um lugar que a maioria das pessoas sequer reconhece como fonte de felicidade. O vídeo conta que ele sai de casa para visitar uma empresa em Curitiba, que ele quer entender o negócio, analisar a contabilidade e conhecer a operação de perto antes de comprar uma única ação. Isso é trabalho no sentido mais literal da palavra, porque envolve estudo de balanço, leitura de demonstração de resultado, projeção de cenários futuros e a disciplina de comprar apenas quando os números fazem sentido.
A maior parte das pessoas que critica pessoas como Barsi ou critica pessoas que poupam e investem, imagina que o mercado financeiro é um cassino, um lugar onde você aposta e torce, e dentro dessa visão o sucesso dele vira ou sorte grande ou esperteza de quem se aproveita do sistema.
O fato que é o Barsi passou décadas fazendo exatamente esse trabalho que parece invisível, e o resultado financeiro veio como vem o resultado de qualquer ofício feito com excelência, porque um médico competente atende mais, um marceneiro excelente cobra mais caro e um investidor que acerta suas teses ano após ano acumula mais patrimônio. A sua renda variável pode ser o seu próprio negócio e você deveria fazer isso com excelência e felicidade.
A bolsa não é um cassino, é um mecanismo que ajuda empresas a crescer
Vale abrir um parêntese sobre o papel que esse trabalho cumpre na economia, porque existe a ideia equivocada de que quem investe em ações e outros ativos só está movendo dinheiro de um bolso para o outro sem produzir nada. Quando você compra uma ação, mesmo no mercado do dia a dia, você está participando da avaliação coletiva e em tempo real de quanto aquela empresa vale, e essa precificação contínua tem enorme valor para a própria empresa, já que serve de referência para ela captar mais recursos, emitir novas ações, conseguir crédito melhor e financiar a sua expansão. A bolsa funciona como uma forma de democratizar o acesso à riqueza que as empresas geram, porque ela permite que o trabalhador de qualquer classe se torne sócio de uma companhia gigante com poucos reais por mês e participe dos lucros através dos dividendos.
Da mesma forma, alguém que empresta seu dinheiro ao banco (por meio de renda fixa como CDB, LCI, LCA) ou empresta para empresas (por meio de um CRI, CRA, Debênture) também está ajudando negócios de verdade que geram empregos e produzem riquezas. São meios que permitem qualquer um participar do mercado de crédito, sendo remunerado por isso.
No caso do Barsi a coisa vai além, porque ele compra um número tão grande de ações que com frequência se torna conselheiro das empresas em que investe. Ele não é um investidor que torce do lado de fora, ele investe como um empresário que vira sócio de verdade, com assento na mesa onde as decisões são tomadas. Quando você entende isso, fica difícil sustentar a tese de que ele só “ficou rico mexendo com ações de forma fácil”, porque o que ele faz se parece muito mais com o trabalho de um empreendedor que conhece o próprio negócio por dentro.
Inclusive é bom destacar que você não deve se iludir que terá o mesmo resultado que o Barsi investindo nas ações que ele investe ou usando um método qualquer que lhe apresentem como algo simples, como comprar ações que pagam bons dividendos. É claro que não é só isso e não é tão simples. Você certamente não tem as virtudes, as habilidades e o conhecimento que permite ao Barsi ter tomado todas as decisões que tomou. E o ponto crítico são as virtudes.
Barsi não apenas conhece balanços: ele possui virtudes como a fortaleza para ignorar ruído de mercado por décadas, a temperança para recusar lucros fáceis que violam seu círculo de competência e a prudência para agir apenas quando a margem de segurança é manifesta. Essas disposições da alma, enraizadas em caráter e visão de longo prazo, são pontos mais decisivos que qualquer técnica ou fórmula que o próprio Barsi (e sua filha) oferece através de cursos online.
O dinheiro, para quem trabalha assim, é o placar e não o troféu
Existe uma consequência psicológica importante nessa forma de operar, e ela explica por que investidores como o Barsi continuem trabalhando aos 87 anos quando poderiam ter parado há décadas. Para alguém que investe planejando e estudando, o patrimônio não é o objetivo final que se gasta, ele é um tipo de placar que confirma se a leitura da realidade estava certa. Quando você avalia uma empresa, projeta um cenário, compra a ação e depois vê os dividendos chegarem ano após ano, aquele dinheiro funciona como uma nota na prova, como a prova de que você entendeu o jogo corretamente. O dinheiro é uma consequência.
É por isso que a explicação consumista nunca consegue dar conta de empresários e investidores idosos que prosperaram. Ela tenta explicar um homem que ama o próprio trabalho usando a régua de quem trabalha apenas para poder parar de trabalhar e gastar, e essas duas mentalidades não cabem na mesma régua. O leitor do Clube dos Poupadores entende isso melhor do que imagina, porque o pequeno investidor que reinveste juros e dividendo recebidos pensando na independência financeira está operando na mesma lógica do Barsi, só que numa escala menor, sentindo o mesmo prazer discreto de ver a carteira crescente validar suas escolhas.
Ser excelente em qualquer ofício gera o mesmo resultado
Faço questão de deixar claro que não existe nada de mágico nas ações em si, porque a fonte da prosperidade do Barsi são as virtudes que ele tem, conhecimentos e excelências aplicadas a um ofício, e isso vale para qualquer atividade. Se o Barsi tivesse escolhido vender carros de luxo como o Tcar, e fizesse isso com o mesmo nível de estudo, dedicação e prazer no processo, ele provavelmente seria igualmente próspero naquele ramo. O Tcar encontra felicidade no negócio dele e o Cariani encontra felicidade em cultuar o corpo e construir suas empresas, e em ambos os casos o dinheiro aparece como consequência de um trabalho feito com afinco, sendo que a diferença é que esses dois dependem da própria imagem para o negócio funcionar, então faz sentido que invistam em aparência de um jeito que para o Barsi seria desperdício.
O erro está em transformar essa diferença de ofício numa hierarquia de valor humano. Quem vende carro de luxo e gosta de ostentar não está vivendo melhor que o Barsi, está apenas exercendo um trabalho cujo combustível inclui a imagem, ao passo que o Barsi exerce um trabalho cujo combustível é a análise fria de números (não depende de exibicionismo e de imagem para gerar resultado). Cada um colhe a felicidade de onde planta, e nenhum dos dois tem autoridade para dizer ao outro que está vivendo errado.
A honestidade exige reconhecer o que há de errado também
Eu seria desonesto com você se transformasse o Barsi num homem sem defeitos, porque a história do pedaço de papelão que ele usa como tapete no carro merece um comentário franco. Usar papelão como tapete não é uma decisão inteligente, é até perigoso, porque um pedaço de papelão solto pode escorregar e travar o pedal num momento em que você menos espera.
Provavelmente é um hábito antigo, daqueles que a gente carrega desde uma época em que sobrava pouco, e que continua firme mesmo quando o motivo original já desapareceu há muito tempo, porque é da natureza humana arrastar hábitos velhos sem revisá-los. O Barsi certamente tem vários desses, como todos nós temos, e reconhecer isso não enfraquece o argumento, pelo contrário, mostra que dá para admirar o método de uma pessoa sem precisar idolatrar cada gesto dela.
Tem ainda um detalhe que acho até divertido, porque o Barsi gosta do personagem que ele construiu. Ser o bilionário que anda de metrô e usa papelão no carro o torna exótico e diferente diante de uma multidão que ostenta, e, provavelmente, existe uma satisfação real em ser essa figura singular. De certo modo ele também busca uma forma de distinção, só que pelo caminho invertido, sendo simples num mundo onde quase todo mundo tenta parecer rico. Reconhecer isso é ser justo, porque ninguém escapa inteiramente do desejo de se diferenciar, nem mesmo o homem mais avesso à ostentação.
A doação que ninguém percebe
Quando os críticos falam que o Barsi é “pão duro”, eles esquecem que ele já deu inúmeras entrevistas ao longo da vida, transmitindo de graça uma experiência que custou décadas para ser acumulada. Ele poderia ter escolhido viver recluso, guardando o método só para si e para a família, e ninguém poderia cobrar nada dele por isso, mas ele optou por motivar outras pessoas a aprender a investir, que não é o único caminho para prosperar mas é o caminho que ele domina (e que talvez não sirva para você, já que falta as virtudes que ele tem). Doar tempo, que é o recurso mais escasso e impossível de recuperar de um homem de 87 anos, é uma forma de generosidade.
A própria filha dá o testemunho mais forte sobre isso, quando diz que o pai lhe deu aquilo de mais escasso que tinha, o tempo, dedicando-se à formação dela e fazendo-a se apaixonar pelo mundo das ações. Um avarento de verdade não distribui o próprio tempo, porque tempo é o único ativo que ele não consegue repor, então a generosidade do Barsi com a formação da filha desmonta a ideia de que ele seja incapaz de dar. Some-se a isso o fato de que muitas pessoas ricas ajudam outras em silêncio, como ensina a tradição cristã de não fazer alarde da própria caridade, e fica claro que não sabemos nem a metade do que um homem como esse faz longe das câmeras.
O paradoxo de quem persegue a felicidade nas coisas
Chegamos no ponto que eu mais quero que fique gravado em você, que é um paradoxo cruel. A pessoa que coloca a felicidade no consumo costuma terminar com menos liberdade do que sonhava, porque ela transforma cada aumento de renda em aumento de despesa e raramente em patrimônio. Quem ganha dez mil e gasta dez mil e quinhentos vive devendo, independentemente do tamanho do salário, ao passo que quem ganha cinco mil e investe mil por mês constrói, em vinte anos a uma rentabilidade real modesta, um patrimônio capaz de gerar uma renda que paga as contas sem precisar trabalhar. A felicidade comprável tende a empurrar a pessoa para a dívida, enquanto a felicidade que vem de fazer um trabalho bem feito tende a empurrá-la para o patrimônio, e patrimônio é o que compra a coisa mais valiosa de todas, que é a liberdade de escolher como você vai usar seus dias.
E é nessa palavra, liberdade, que a história se inverte por completo. O Barsi tem a liberdade de andar de metrô porque quer, de usar papelão no carro porque não liga, de ir trabalhar todo dia porque ama o que faz, e essa liberdade só existe porque o patrimônio o libertou da necessidade. Quem vive escravo da próxima parcela do carro novo não tem nem a metade dessa liberdade, mesmo dirigindo um carro que custa o triplo.
A pergunta que sobra para você
No fim das contas, a polêmica em torno do Barsi não é sobre o Barsi. Ela é um espelho que devolve para cada um de nós a pergunta sobre onde fomos buscar a nossa própria felicidade, se na sensação que se compra e se esgota, ou na competência que se exerce e se aprofunda. Quem encontra alegria apenas naquilo que o dinheiro compra vai correr a vida inteira atrás de uma linha de chegada que se move junto, e dificilmente vai acumular o patrimônio que daria a ele a liberdade que tanto diz querer.
Talvez o cara mais pobre do cemitério não seja quem morre com mais dinheiro guardado, mas quem morre sem nunca ter descoberto um trabalho que valesse a pena fazer de graça.

