Quase todo mundo que quer ganhar mais dinheiro acredita que está faltando uma informação nova, um curso, um mentor ou um golpe de sorte. Eu desconfio dessa explicação há bastante tempo, porque o que costuma faltar é justamente a coisa mais óbvia e mais penosa de fazer, que é sentar e executar o trabalho duro por tempo suficiente para o resultado finalmente aparecer.

Foi o que pude ver no vídeo de um pecuarista de Roraima, gravado no meio do pasto, em que ele conta como passou em concurso público, de salário elevado, depois de quase vinte anos tentando. Ele não tem diploma chique para exibir nem vende fórmula mágica, e mesmo assim diz, em alguns minutos de conversa e suor, mais coisa verdadeira sobre dinheiro e esforço do que muita gente diz em livro inteiro. Recomendo que você assista antes de continuar, porque o que vem depois é um comentário sobre o que esse homem simples entendeu na prática, e que serve para qualquer um que precise aumentar a própria renda.

Quem é o homem que grava do meio do pasto

Ele se apresenta como um homem do campo que foi aposentado por invalidez (por alguns anos), e diz que carrega uma trajetória de quase vinte anos de estudo para concurso, com algo em torno de trinta reprovações e dez aprovações pelo caminho. Quem ouve esse número de cara já desiste de procurar o talento escondido, porque ninguém que fosse naturalmente brilhante precisaria reprovar trinta vezes antes de chegar onde queria, e é exatamente aí que mora o valor do depoimento dele.

A escalada profissional desse homem do campo é uma aula por si só. Em outro vídeo ele explica que chegou a se aposentar por invalidez quando era agricultor, devido a um problema físico que o impedia de realizar trabalhos físicos. Ele começou na área da saúde, como auxiliar de serviços de saúde (em outro vídeo ele explica que pediu baixa na aposentadoria pela invalidez que não o deixava trabalhar como agricultor), depois se tornou técnico de enfermagem, e nesse meio tempo passou em outro concurso para assistente administrativo numa universidade, onde percebeu que o trabalho administrativo lhe rendia mais do que o plantão de enfermagem. Cursou matemática, deu aula por três meses, concluiu que a profissão era pouco valorizada no Brasil, e a partir daí migrou de forma deliberada para o Tribunal de Justiça de Roraima, em seguida para o Tribunal Regional Eleitoral, até chegar onde sempre sonhou, que foi a Secretaria de Fazenda como auditor fiscal (atividade de salário elevado).

Repare que nenhum desses passos foi um salto isolado. Cada cargo funcionou como degrau para o seguinte, e ele mesmo dá nome a isso quando diz que existe “concurso escada”, aquele que você usa para subir aos poucos. A lógica financeira por trás disso é importante, porque um técnico de enfermagem que ganha algo na faixa de três mil reais e que chega a um cargo de auditoria com salário várias vezes maior multiplicou a capacidade de poupar.

A humildade de quem se reconhece pequeno

Em vários momentos do vídeo ele repete que se considera “abaixo da média”, que não tem facilidade para falar, para escrever nem para aprender rápido. Pode parecer falsa modéstia, mas eu acredito que essa é a chave de tudo, porque nada do que ele construiu teria sido possível se ele fosse um soberbo convencido do próprio brilho. Quem se acha pronto não estuda seis horas por dia durante vinte anos, simplesmente porque a soberba dá ao sujeito a desculpa perfeita para não fazer o trabalho braçal que a vitória exige.

Essa humildade tem uma origem que vale comentar. O homem do campo vive em contato direto com uma realidade que não obedece à sua vontade, porque a chuva vem na hora que quer, o pasto seca quando o sol aperta, o gado adoece e o preço cai sem pedir licença, de modo que a natureza vai aos poucos dissolvendo qualquer ilusão de controle absoluto. O homem da cidade, ao contrário, vive cercado de conforto artificial, com comida que aparece pronta, temperatura regulada e estímulos infinitos na tela, e por isso desenvolve uma soberba estranha, parecida com a de um animal de cativeiro que nunca caçou e se acha o dono do mundo dentro da jaula.

A vida da roça quebra essa soberba todo dia, e foi essa quebra que permitiu uma pessoas imples fazer a única coisa sensata para quem não tem dom, que é apelar para a força bruta. Ele conta que aplicava no estudo a mesma garra do trabalho pesado, ficava no pasto debaixo de sol queimando quando o corpo já pedia para parar, e lia o regulamento do imposto dentro do carro enquanto puxava água para os animais. Quem se reconhece pequeno usa o suor como ferramenta, porque sabe que não tem outra, e essa consciência vale mais do que qualquer talento desperdiçado por preguiça.

O esforço bruto que sustenta o resto

Perguntado sobre qual era a técnica de estudo, ele responde sem rodeios que a técnica que mais funciona é “BC, bunda na cadeira”. Ele descreve um método de aumento progressivo da carga, começando com duas horas, passando para três, quatro, até chegar a seis ou sete horas diárias de estudo com constância. Quem encara isso por uns meses sente a diferença, e quem fica esperando o dia perfeito para começar continua no mesmo lugar de sempre.

Vale fazer a conta para enxergar o tamanho do que está em jogo. Quem estuda duas horas por dia acumula cerca de setecentas horas ao longo de um ano, enquanto quem estuda seis horas por dia chega perto de duas mil e duzentas, e essa distância de mais de mil e quatrocentas horas é praticamente o que separa o aprovado do candidato que reprova e culpa os outros. O homem é categórico ao dizer que estudar “quando der”, uma horinha aqui e outra ali, até pode aprovar em cargo baixo, mas não leva ninguém aos cargos de alto nível, da área fiscal e dos tribunais, que exigem garra proporcional à dificuldade.

Esse princípio extrapola completamente o mundo dos concursos. O empregado CLT que quer subir precisa entregar mais do que o salário paga, o pequeno empreendedor que quer crescer precisa estar na frente do negócio antes de todo mundo e depois de todo mundo, e o investidor que quer construir patrimônio precisa da mesma constância mês após mês, porque a riqueza vem de aporte repetido e não de uma tacada genial que um influenciador compartilhou na internet. Em todas essas frentes, a bunda na cadeira é o fundamento sobre o qual qualquer estratégia mais sofisticada precisa se apoiar para fazer sentido.

Disciplina vale mais do que inteligência

O ponto que mais me chamou atenção foi a forma como ele desmonta a desculpa da inteligência. Ele insiste que qualquer pessoa tem capacidade de passar em qualquer concurso, e que o que impede a maioria é um complexo de inferioridade, a crença de que só passa quem é naturalmente inteligente. Por trás de cada aprovado existe uma história de luta que ninguém vê, e ele observa que na repartição onde trabalha há gente de todo tipo, engenheiro, enfermeiro, professor, profissional de tecnologia, todos com níveis intelectuais diferentes, unidos apenas pelo fato de terem aplicado o mesmo esforço bruto da roça.

Sobre o verdadeiro adversário, ele diz: “Você não tem que superar vinte mil candidatos, você tem que dominar você mesmo”, e essa frase resume bem onde a batalha acontece de verdade. Ele descreve o autossabotador interno com precisão de quem já apanhou dele muitas vezes, aquele que inventa a vontade de levantar, de pegar o celular, de ir ao banheiro, de fazer qualquer coisa menos a tarefa difícil que está na frente, e conclui que o maior concorrente somos nós mesmos.

Essa verdade é talvez ainda mais importante para quem investe do que para quem estuda. O mercado está cheio de gente inteligente que perde dinheiro porque não consegue dominar o próprio impulso de comprar na euforia e vender no pânico (quase sempre seguindo recomendações de influenciadores), ao passo que o investidor mediano em raciocínio, porém firme em disciplina, aporta todo mês, segura a posição e termina muito à frente. A inteligência ajuda, ninguém vai negar, mas ela rende pouco quando falta domínio sobre o corpo, sobre a mente e sobre a emoção, que é justamente onde o agricultor concentra seu foco

As desculpas que a internet transformou em indústria

Existe hoje uma economia inteira montada para vender conforto a quem fracassa. O homem toca nisso quando fala da “indústria milionária de concurso público”, que mexe com o sonho das pessoas e enche o feed de propaganda de mentor e coach prometendo aprovação rápida. Ele não condena a mentoria, e até reconhece que um bom mentor acelera quem já tem disciplina, mas é honesto ao dizer que conhece gente que paga coach por dois anos e não sai do lugar, porque o dinheiro do curso nunca substituiu o esforço que ninguém pode terceirizar.

Repare como esse mesmo padrão domina as redes quando o assunto é dinheiro. A internet está abarrotada de gente que fracassou e que, em vez de encarar o próprio fracasso, oferece desculpas confortáveis para que outros fracassados também se sintam em paz, culpando o sistema, a sorte, o patrão, a conjuntura, qualquer coisa menos a falta de trabalho duro e constante. O depoimento do agricultor é um tapa na cara nesse ambiente todo, porque ele diz com todas as letras que “a desculpa que você dá não vai lhe ajudar em nada”, e que a pessoa que reclama do trabalho estressante está apenas arrumando justificativa para si mesma em vez de encarar a realidade.

Ele conta que o período em que mais estudou foi o período mais difícil da vida, doente, sem dinheiro nem para uma consulta, dormindo na rodoviária de Boa Vista por não ter como pagar um hotel, ainda assim com o livro aberto. Qualquer leitor que esteja prestes a dizer que não tem tempo de estudar ou de organizar o orçamento deveria pôr a própria desculpa ao lado da rodoviária de Boa Vista e medir, com honestidade, quanto ela pesa de verdade.

Audentes fortuna iuvat, a sorte favorece quem sua

Os antigos romanos tinham uma frase que cabe perfeitamente nessa história, “audentes fortuna iuvat”, que se traduz como a sorte favorece os audazes. A tal da sorte costuma chegar para quem está em movimento, fazendo o trabalho, exposto às oportunidades, e raramente bate na porta de quem ficou sentado esperando o momento ideal. É uma forma elegante de dizer que não existe sorte como as pessoas imaginam. O homem do campo viveu isso quando descreve que, depois de tanto esforço, sentia que tudo conspirava a favor, e resume assim: “quando você se esforça, todo mundo te ajuda”.

Podemos criar aqui três palavras em latim para representar essa história: “cogitavi, sudavi, feci”, que significam “planejei, suei, fiz”. Tem uma beleza nessa sequência, porque ela junta a parte intelectual do planejamento, a parte física do suor e a entrega do resultado prático sem deixar nenhuma brecha para a hesitação no meio do caminho. Ele pensou onde queria chegar, suou para chegar lá e fez o que precisava ser feito, e essa é a fórmula completa, sem o passo do meio que quase todo mundo tenta pular.

Há algo de profundamente heroico no orgulho que esse homem sente do próprio sacrifício, e é um orgulho que a sociedade atual quase desaprendeu a reconhecer. Vivemos um tempo que trata o sofrimento voluntário como bobagem ultrapassada, que ensina a buscar o caminho mais fácil e a se proteger de todo desconforto, e o resultado é uma geração cada vez mais frágil, incapaz de aguentar o peso que gerações anteriores carregavam sem reclamar. O pecuarista que se gaba, com toda razão, de ter dormido na rodoviária para estudar representa uma virtude antiga que anda sendo combatida, e talvez por isso o relato dele incomode tanto quem prefere a versão confortável da vida.

A escada que serve para o CLT, o empreendedor e o investidor

Tudo o que esse homem aplicou para passar em concurso vale, sem nenhuma adaptação, para qualquer pessoa que precise aumentar a própria renda por outro caminho. A estratégia da escada, em que cada posição é usada como apoio para alcançar a próxima, funciona igual para o empregado CLT que assume um cargo melhor para depois pleitear outro ainda melhor, e para o pequeno empreendedor que começa com um negócio modesto e usa o caixa e a experiência para montar algo maior. O importante é não se acomodar no primeiro degrau, e ele avisa exatamente isso ao dizer que a pessoa pode passar numa prefeitura para dar uma aliviada no financeiro, garantir o arroz com feijão, mas que não pode parar e se acomodar ali.

A conexão com a independência financeira é o que mais me interessa, porque renda maior só vale a pena quando vira patrimônio. Imagine alguém que ganha três mil reais e que, com esforço e estratégia de escada, chega a seis mil em alguns anos, mantendo o mesmo padrão de vida da época em que ganhava menos. Essa pessoa não dobrou apenas o salário, ela multiplicou a sobra mensal, porque o aluguel, a conta de luz e o supermercado continuaram quase iguais, de modo que os três mil reais a mais podem ir quase inteiros para os investimentos. É dessa diferença, aportada com a mesma constância da bunda na cadeira, que nasce o juro composto trabalhando a favor de quem poupa.

O empreendedor enxerga a mesma lógica no próprio negócio, quando reinveste o lucro em vez de inflar o padrão de consumo, e o investidor a vive quando aumenta o aporte sempre que a renda cresce. Em todos os casos, o gargalo nunca foi falta de informação sobre onde investir, e sim a capacidade de gerar mais renda e de transformar essa renda em capital antes que ela evapore em gastos. O agricultor não falou de Tesouro Direto nem de fundo imobiliário, mas ensinou a parte mais difícil de tudo, que é o motor de esforço e disciplina sem o qual nenhuma carteira de investimentos sai do papel.

A força que vem de cima e o tênis comprado com galinhas

O homem é claro ao dizer que a parte emocional e espiritual decide quem persiste e quem desiste, porque tem gente que não aguenta o psicológico da dificuldade e abandona antes da hora. Ele atribui a Deus a força nos momentos de esgotamento, e mesmo o leitor que não compartilhe da fé dele deveria observar o efeito prático dessa convicção, já que um homem que acredita estar sendo amparado por algo maior do que ele consegue suportar privações que quebrariam quem só conta com a própria vontade. A gratidão e o sentido transcendente sempre funcionaram como combustível que não acaba nos momentos difíceis da vida.

O momento comovente do vídeo está na lembrança do primeiro tênis. Certamente isso tem um forma simbólica importante na vida dele. Ele conta que aos quinze anos precisava de um tênis para a aula de educação física, a família não tinha condições, e a mãe vendeu algumas galinhas para comprar o calçado, tirando do pouco que tinha para dar ao filho. Esse tipo de gesto é um investimento sacrificial que cria no filho uma dívida de honra, a obrigação moral de não desperdiçar o que custou tão caro a quem amava. Ele honrou aquele tênis com vinte anos de estudo, e por isso pede aos jovens que valorizem o pai e a mãe enquanto há tempo.

Ele percebe que quem nasce com facilidade, com internet e casa e apoio, frequentemente relaxa e desperdiça, ao passo que quem veio do sofrimento costuma transformar a gratidão em garra. Vale a reflexão para o pai de classe média que dá tudo de bandeja ao filho achando que está ajudando, quando às vezes o conforto excessivo rouba justamente o aperto que forja o caráter. O sacrifício de quem veio antes só vira combustível quando é reconhecido como dívida, e o homem reconheceu a dele até o fim.

O recado que vem da roça

No fundo, esse homem simples está dizendo uma coisa que vale para o concurseiro, para o CLT, para o empreendedor e para o investidor, que é a de que o resultado depende muito menos de talento, sorte ou fórmula secreta do que de esforço duro, disciplina sobre si mesmo e a coragem de encarar a realidade sem desculpas. A estratégia da roça e a estratégia do enriquecimento são a mesma estratégia, porque ambas premiam quem planeja, sua e executa por tempo suficiente, e ambas punem quem fica esperando o caminho fácil.

Quem entendeu o recado da rodoviária de Boa Vista já tem tudo o que precisa para começar hoje, sem mentor, sem fórmula e sem mais nenhuma desculpa.