Investidores que antes deixavam o dinheiro parado em fundos DI ou fundos de renda fixa de grandes bancos e corretoras estão migrando para ETFs de renda fixa, especialmente o LFTB11. Vou explicar o que está acontecendo.

O LFTB11 é hoje um dos maiores e mais líquidos ETFs de renda fixa da B3. Você pode comprar esse ETF da mesma forma que compra ações e fundos imobiliários através do aplicativo do seu banco ou corretora. A carteira deste ETF é formada majoritariamente por títulos públicos pós-fixados (Tesouro Selic) com uma pequena parcela de Tesouro IPCA. Essa composição serve para mantém o prazo médio de vencimento dos investimentos que existem na carteira para um prazo acima de 720 dias. O objetivo prático é uma alíquota de Imposto de Renda fixa de 15%, independentemente do tempo que o investidor permanece com o ETF.

O problema estrutural dos fundos de renda fixa tradicionais

Os fundos de renda fixa tradicionais (especialmente os DI e os de longo prazo) possuem três características que corroem o retorno líquido do seu investimento no longo prazo:

  1. Come-cotas: Duas vezes por ano (último dia útil de maio e de novembro) o fundo antecipa o Imposto de Renda sobre os rendimentos do período. A alíquota é de 15% nos fundos de longo prazo e de 20% nos de curto prazo. Esse valor é “comido” das cotas do investidor, mesmo que ele não resgate nada. O dinheiro que sai deixa de render juros sobre juros, pois ele é surrupiado pelo governo.
  2. IOF nos resgates de curto prazo: Se o investidor precisar do dinheiro antes de 30 dias, paga IOF regressivo, que pode chegar a 96% do rendimento no primeiro dia.
  3. Tabela regressiva de IR + custos elevados A alíquota de IR depende do tempo de permanência do investidor (22,5% até 180 dias, caindo gradualmente até 15% após 720 dias).
  4. Taxa elevada: Muitos fundos, principalmente dos grandes bancos, cobram taxas de administração muito maiores que a taxa de ETFs. A taxa administrativa do LFTB11 é de 0,19% (ao ano). Fundos DI voltados para pequenos correntistas chegam a cobrar entre 1,00% e 2,00% a.a. de taxa de administração.

O ETF de renda fixa elimina os dois primeiros problemas e atenua os outros dois.

As diferenças práticas

Critério Fundo de Renda Fixa Tradicional ETF de Renda Fixa (ex: LFTB11)
Come-cotas Sim (maio e novembro) Não
IOF Sim (até 30 dias) Não
Alíquota de IR Tabela regressiva (22,5% a 15%) 15% fixa (pela composição da carteira)
Momento do IR Antecipado + residual no resgate Somente na venda das cotas
Recolhimento do IR Automático no fundo Retido na fonte pela corretora
Taxa de administração Frequentemente 0,50% a 1,00%+ 0,19% (LFTB11)
Liquidez Depende do fundo (D+0 a D+30) Pregão da B3, liquidação D+1
Transparência Carteira nem sempre clara Carteira pública e diária
Uso como garantia na B3 Limitado Aceito com deságio baixo

A diferença mais importante não está na taxa de administração. Está no diferimento do imposto come-cotas.

A simulação do come-cotas

Vamos aos números. Imagine um investimento de R$ 100.000 rendendo constantemente 12% ao ano durante 10 anos, ou seja, vamos supor que esses 12% representam 100% do CDI.

Cenário 1 – Fundo de renda fixa com come-cotas (15% semestral)
Patrimônio final líquido no final dos 10 anos: R$ 263.092
Taxa efetiva anual líquida: 10,16%
Equivalente a 84,6% do CDI.

Cenário 2 – Mesmo rendimento, sem come-cotas (imposto de 15% só no resgate)
Patrimônio final líquido: R$ 278.997
A diferença de R$ 15.905 não é pequena. Ela representa o capital que foi antecipado ao Fisco a cada semestre e deixou de render juros sobre juros. Em prazos mais longos a distância aumenta de forma não linear. Em 20 ou 30 anos o efeito do come-cotas se torna ainda mais expressivo. Isso é muito importante quando consideramos aquele dinheiro que você está guardando para a sua aposentadoria e independência financeira.

É exatamente essa matemática que está levando investidores a preferir o ETF. No LFTB11 o imposto só é pago quando o investidor vende as cotas. Até lá, 100% do capital permanece trabalhando, rendendo juros sobre juros.

Outras vantagens operacionais

Além da eficiência tributária, o LFTB11 oferece:

  • Liquidez diária em pregão, com formador de mercado.
  • Possibilidade de uso como margem de garantia em operações na B3.
  • Risco predominantemente soberano (títulos públicos).
  • Reinvestimento automático dos rendimentos dentro da cota (sem eventos tributáveis intermediários).
  • Transparência total da carteira.

A parcela residual de NTN-B longa introduz uma volatilidade pequena, mas controlada. Em cenários de queda de juros de longo prazo essa parcela pode até gerar ganho adicional. Em cenários de alta de juros, a volatilidade aumenta momentaneamente, mas o comportamento dominante continua sendo o de um pós-fixado.

Quando o ETF faz mais sentido

O LFTB11 e produtos semelhantes não são necessariamente superiores em todas as situações. Para valores muito pequenos (abaixo de R$ 10 mil) o Tesouro Selic ainda pode ser competitivo por causa da isenção de taxa de custódia. Para quem precisa de liquidez imediata em D+0 e não quer lidar com o mercado secundário, um fundo DI de liquidez diária ainda tem utilidade.

Para a maioria dos investidores que mantêm reserva de emergência, caixa de oportunidades ou parcela conservadora da carteira por meses ou anos, a combinação de alíquota fixa de 15%, ausência de come-cotas, isenção de IOF e custo baixo torna o ETF estruturalmente mais eficiente.

Outros ETFs semelhantes:

Os grandes bancos já perceberam que as pessoas estão migrando o dinheiro dos fundos para ETFs como o LFTB11 (gráfico) e vários ETFs similares estão sendo lançados.

  • CDIB11 (Itaú Renda Fixa Simples / Tesouro): Lançado pela Itaú Asset, opera na mesma faixa de estruturação institucional com foco em eficiência tributária a 15% de IR e taxa de administração de 0,15% a.a., utilizando o peso de soberanos brasileiros. É um ETF que ainda tem pouca liquidez quando comparado ao LFTB11 (menos negociações por dia) (gráfico).

  • LTBX11 (XP Tesouro IPCA/Selic Target): Estruturado pela XP Asset, segue a linha de fundos de índice de duração-alvo com mix de LFTs e NTN-Bs. A taxa administrativa é de 0,14% ao ano (gráfico).

  • AUPO11 (AUVP / BTG Pactual): Desenvolvido em parceria com a gestora do BTG, replica a mesma tese de alocação de curto/médio prazo voltada para investidores que buscam otimizar a carga tributária da renda fixa com taxa de 0,15% a.a. (gráfico).

Outros ETFs com estratégia parecidos, mas que ainda são pouco negociados durante o dia são: POSB11 e LIQB11.

Conclusão

A migração de fundos de renda fixa para ETFs como o LFTB11 é baseada em fundamentos matemáticos. O come-cotas funciona como um vazamento semestral de capital. Quanto mais longo o prazo, maior o dano composto. O ETF remove esse vazamento, fixa a alíquota no piso de 15% no resgate e opera com custo competitivo.

Essa diferença entre pagar imposto no final e pagar imposto a cada seis meses justifica o crescimento de ETFs de renda fixa como o LFTB11 e seus similares, e o desinteresse dos investidores por fundos DI e fundos de renda fixa de grandes bancos.