Todos os títulos Tesouro IPCA, incluindo os que pagam juros semestrais, terminaram esta semana pagando mais de 6% ao ano sobre o valor investido corrigido pelo IPCA. Com não se trata de um evento frequente farei algumas reflexões. Aqui estão as taxas divulgadas em 08/07/2022:

 

Para exemplificar a situação preparei o gráfico abaixo circulando toda as vezes que a taxa (linha vermelha) atingiu 6% ao ano no Tesouro IPCA+ 2035 desde o ano de 2010 até 2022:

A linha preta horizontal mais destacada no gráfico acima representa a taxa de venda de 6%. A taxa de venda é a taxa que efetivamente impacta o seu resultado financeiro quando você vende o título antecipadamente. A linha vermelha é a variação da taxa do Tesouro IPCA+ 2035. A linha verde representa o preço de venda antecipada do título, ou seja, o preço que o Tesouro pagou para quem estava disposto a vender o título antes do vencimento. Você pode acessar o gráfico do Tesouro IPCA+ 2035 atualizado diariamente aqui.

Existe uma situação comum que permeava os momentos em que essas taxas de juros longas atingiram esses patamares elevados. Em todas as situações o país enfrentava uma fase de “estresse” nas expectativas dos investidores sobre o futuro. Para o investidor estresse é igual a incerteza.

Sempre existiu uma relação entre as expectativas de aumento dos gastos públicos e a disparada dos juros prefixados e indexados ao IPCA. Isso se agrava nos anos eleitorais. As pessoas entendem os auxílios e benefícios como algo benéfico no curto prazo, sem considerar as consequências não intencionais de longo prazo.

Então estamos diante de uma oportunidade?

Quando o mercado acredita que o futuro é incerto, ele para de demandar e até começa a se desfazer de títulos públicos prefixados e indexados ao IPCA. Essa menor demanda produz uma queda nos preços dos títulos. Como você já deve ter percebido, quanto menor o preço de um indexado ao IPCA e prefixado, maior a taxa de juros que remunera esse título até o vencimento.

Você deve entender que títulos mais baratos, com juros maiores, representam títulos que estão premiando você para correr o risco sobre o futuro.

Observe no gráfico acima que no ano eleitoral de 2014 os juros se mantiveram elevados no Tesouro IPCA 2035. Ele ficou muito tempo pagando entre 6% e 6,5% e chegou a atingir taxas próximas de 7%. Em 2015 e 2016, com o agravamento da crise, os juros chegaram muito perto de  8%.

O risco do investimento em títulos que pagam IPCA + juros está na impossibilidade de adivinhar qual será a equipe econômica e suas decisões após as eleições. O que podemos considerar é que historicamente as taxas acima de 6% + IPCA foram oportunidades. Mas só foram oportunidades porque continuamos flertando com o abismo sem saltar nele.

O último grande possível salto no abismo foi interrompido por um impeachment e pela aprovação da emenda constitucional do Teto dos Gastos Públicos em 2016. Este é o mesmo teto de gastos que vem sendo ameaçado constantemente por todos os políticos desde a crise de 2020. Foi esse teto que justificou a queda dos juros, alta da bolsa e a recuperação da economia entre 2016 e 2019. Da mesma forma, ameaçar o teto é justificativa para alta dos juros, queda da bolsa e destruição da economia, assim como acontece em países como a Argentina onde não existe qualquer tipo de limitação para os gastos públicos.

Também podemos considerar que os títulos com vencimentos mais curtos, como o Tesouro IPCA+ 2026 (veja o gráfico), são menos arriscados que os títulos mais longos como o Tesouro IPCA+ 2045 (veja o gráfico), pois qualquer pequena variação na taxa de um título que vence em 2055 produz uma grande variação no seu preço. Veja os gráficos dos títulos prefixados e os gráficos de títulos indexados ao IPCA.

Considerando o risco de taxas crescentes, podendo atingir 7% ou algo próximo de 8%, como aconteceu no passado, é importante realizar investimentos aos poucos. Comprar um pouco com taxas de 6%, mais um pouco com taxas de 7% e mais um pouco com taxas de 8% é melhor que apostar tudo em uma taxa de 6%.

Considere que o ciclo de alta da taxa Selic tem como objetivo reduzir a inflação nos próximos meses desaquecendo a economia. Quando o Banco Central conseguir controlar a inflação a remuneração do título baseada no IPCA será reduzida. Não devemos esquecer que a inflação elevada se manifesta em praticamente todos os países neste momento.

Mesmo assim, ainda devemos considerar a impossibilidade de saber quem será o próximo presidente, qual será a sua equipe econômica e as políticas que serão adotadas.

O grande risco de quem investe em títulos que pagam IPCA + taxa de juros está no descontrole da inflação gerada por políticos no futuro. Diante do descontrole, já sabemos o que os políticos são capazes de fazer. Já vimos políticos congelando preços gerando desabastecimento na década de 80. Já vimos políticos confiscando a poupança na década de 90. Já vimos políticos interferindo nos preços da energia elétrica e políticos alterando impostos com o objetivo de “combater” a inflação. No futuro, dependendo do tipo de político que pode chegar no poder, não seria estranho ver o IPCA sendo forjado, tornando os números da economia pouco confiáveis como ocorre em países como Venezuela, Argentina e outros que seguem a mesma linha. O risco é o de investir em IPCA + 6% e receber um IPCA forjado + 6%.

Se você acredita que estamos apenas flertando com o abismo, IPCA com 6% ou mais são oportunidades, mas considere que muitos estão trabalhando com empenho para que ocorra o grande salto no abismo e as taxas podem subir mais. Até investimentos de renda fixa são arriscados quando você vive em um país com eleitores e políticos como os que temos no Brasil. A partir disso, invista quando as taxas compensam esse risco. Faça isso aos poucos e mantenha a diversificação por aceitar a impossibilidade de prever o futuro. Aprofunde os seus conhecimentos sobre títulos públicos através deste livro aqui e sobre a simulação e a montagem de carteiras diversificadas de investimentos.

Por fim, sempre considere a possibilidade de ter parte dos seus investimentos em outro país. Eu escrevi um livro sobre isso, veja aqui. Recentemente o maior banco privado do Brasil comprou parte da corretora nos EUA que eu utilizo como exemplo neste livro. Provavelmente este grande banco está se preparando para a possibilidade de muitos dos seus clientes enviarem recursos para fora.

Individualmente não temos controle sobre os rumos da economia e do país, mas temos controle sobre os conhecimentos que precisamos para defender os nossos interesses e proteger o nosso patrimônio. Continue investindo nos seus conhecimentos e reduza a influência que os outros exercem nas suas decisões.

A imagem acima representa o que significa a dependência quando o assunto é dinheiro. A pessoa que joga a migalha poderia ser um político, o seu atual patrão, o influenciador que compartilha migalhas nas redes sociais recomendando investimentos ou todos que de alguma forma trabalham para tornar você dependente. Livre-se disso.

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