Aqui temos uma lista de ações negociadas na bolsa de empresas que possuem participações direta e/ou indireta do governo e que por esse motivo podem sofrer influência por motivações políticas.

Sabemos que nem sempre motivações políticas resultam em decisões comprometidas com os melhores resultados financeiros para as empresas. Isso acaba se tornando um problema para aquelas pessoas que investem suas economias pessoais nas ações dessas empresas.

Escrevo esse artigo diante de um contexto. Em 2018, durante as eleições, o ministro da economia Paulo Guedes disse que era favorável à privatização de todas as estatais para reduzir o endividamento público, mas sabia da resistência do presidente ao plano. Ele disse: “é muito interessante isso porque o Bolsonaro era associado ao seguinte: ‘não será vendida nenhuma’. Agora vai ter um resultante interessante, porque para mim são todas. Então, se não tem nenhuma e tem todas, deve ter algo aí no meio” (fonte).

Agora estamos no início de 2021 e o mercado parece esperar esse “algo aí no meio”, especialmente depois do agravamento da dívida pública durante a crise de 2020.

Mas agora no dia 19 de fevereiro o governo resolveu trocar o presidente da Petrobras. O argumento dado pelo presidente da república foi: “Anuncio que teremos mudança sim na Petrobras. Jamais vamos interferir nesta grande empresa e na sua política de preços, mas o povo não pode ser surpreendido com certos reajustes”.

Segundo a agência de notícias do próprio governo: “A mudança na Petrobras ocorre em meio a recentes aumentos no preço dos combustíveis e um dia depois do governo anunciar que vai zerar os impostos federais que incidem sobre o gás liquefeito de petróleo (GLP) – o gás de cozinha – e o óleo diesel. No início da tarde, durante um compromisso oficial no interior de Pernambuco, Bolsonaro voltou a criticar os reajustes frequentes no preço dos combustíveis e prenunciou mudanças que faria na Petrobras, mas sem abrir mão da atual política de preços da companhia (fonte).

Agora no final de fevereiro de 2021 a Economatica divulgou uma lista de empresas que possuem participações do governo através do BNDES, que é uma forma indireta de influência. Também existem empresas com influência direta como Petrobras, Eletrobras, Telebras, Banco do Brasil e BB Seguridade, CESP e outras. Você pode clicar em todas as figuras para aumentar.

Como podemos ver na tabela acima, no ano de 2020 o BNDES tinha participação em 16 empresas com ações listadas na bolsa. A maior participação era na Tupy, com 28,19% da empresa. A segunda empresa na qual tem maior participação é a Copel com 23,96%. Em 2020 o BNDES iniciou sua participação na Padtec (Antiga Ideias Net) e Hidrovias do Brasil com 23,05% e 1,72% do capital, respectivamente. Em 2020 o BNDES tinha participação de 8,07% da Petrobras, em 2017 a parcela do BNDES era de 16,59% e de 13,90% no ano de 2019. Outra redução de participação percentual significativa no ano de 2020 foi na AES Tiete Energia, em 2019 a participação era de 28,33% e em 2020 de 9,91%. Em 2020 o BNDES aumentou a participação na Klabin em 2,25 pontos percentuais, fechando 2020 com 7,45% da empresa (fonte).

Logo abaixo temos o histórico do preço da ação da Petrobras nos últimos 10 anos que iremos considerar como um exemplo educativo. Cada vela (candle) está representando a variação do preço da ação em 1 semana. Velas vermelhas indicam preço em queda e verdes os preços em alta.

Entre 2014 e 2016 temos o preço da ação caindo 83% quando deixou de ser negociada por R$ 23 e passou a ser negociada por menos de R$ 4 como consequência de decisões políticas. Entre 2011 e 2015, durante a gestão Dilma, a variação dos preços internacionais era repassada de forma defasada aos combustíveis no país. Era uma tentativa de “segurar” a inflação, mesmo gerando consequências negativas nos lucros da empresa como veremos mais na frente. A Petrobras chegou a importar combustível mais caro e vendê-lo mais barato no Brasil. No gráfico acima podemos ver a queda de 48% durante a greve dos caminhoneiros no governo Temer que foi uma reação contra mudanças nos preços dos combustíveis.

Logo abaixo temos um gráfico educativo de preço (linha azul) e lucro por ação (linha laranja) da Petrobras.

Fonte: GuiaInvest Pro

Vimos no artigo sobre o lucro por ação que os preços das ações dependem dos resultados financeiros das empresas e das expectativas dos investidores sobre os resultados que elas terão no futuro. Bons resultados financeiros ou boas expectativas sobre o futuro fazem o investidor demandar mais ações e essa demanda eleva seu preço.

Resultados ruins fazem os investidores se desfazerem de suas ações, empurrando os preços das ações para baixo. Para o investidor é coerente que os preços se movimentem na mesma direção do lucro por ação. Logo acima podemos ver o lucro por ação e o preço da ação em queda entre 2014 e 2016. Em 2020, chama a atenção o comportamento do preço da ação e o lucro por ação depois da crise de 2020. Certamente essa discrepância se deve a uma expectativa positiva do investidor sobre o futuro e sabemos que expectativas sobre o futuro as vezes se realizam e as vezes decepcionam.

Fonte: GuiaInvest Pro

O gráfico acima mostra o lucro líquido da Petrobras. Cada barra trimestral representa o lucro líquido dos últimos 12 meses. As barras com valores negativos representam prejuízo e não lucro. Prejuízos crescentes são negativos para os preços enquanto prejuízos decrescentes são positivos.

Logo abaixo temos outro exemplo educativo no gráfico semanal da ação da Eletrobras.

Ela já foi negociada por mais de R$ 30 no início de 2010 e caiu 85% até algo próximo de R$ 4 por ação. Os motivos da interferência política foram os mesmos da Petrobras e estavam relacionados com os preços e a necessidade de “controlar” a inflação, mesmo que isso resultasse em prejuízos para as empresas elétricas. Entre o final de 2020 e início de 2021 ocorreu um forte movimento de queda no preço da ação (-32%) por uma “quebra” de expectativas dos investidores com relação ao futuro da Eletrobras. Muitas empresas tiveram suas ações valorizadas com base em expectativas sobre privatizações e menores interferências do governo.

Logo abaixo temos o gráfico que representa o lucro líquido da Eletrobras. Cada barra trimestral representa o lucro líquido dos últimos 12 meses. Podemos ver que existe uma relação entre a queda no preço das ações (gráfico acima) e os registros de prejuízos (barras com valores negativos).

Fonte: GuiaInvest Pro

O objetivo desse artigo é educativo (não se trata de recomendação) e tenta mostrar a importância de avaliar quem controla e influencia as empresas de forma direta ou indireta.

No caso de influência política, você deve considerar como investidor que nem sempre os interesses dos políticos estão relacionados com os interesses das empresas e de seus acionistas. Vivemos em um país onde existe pouca educação financeira e nenhum entendimento sobre como a economia funciona. Naturalmente as pessoas vão exigir dos políticos (de qualquer partido) o controle de preços, congelamentos, interferências na economia acreditando que isso é o melhor a ser feito. Os políticos fazem o que as pessoas querem e não o que elas precisam para que se mantenham populares.

Também vimos neste artigo que a alta nos preços das ações depende de bons resultados financeiros ou boas expectativas sobre os resultados financeiros no futuro.

Você pode aprender mais sobre como analisar os fundamentos financeiros das empresas através deste livro aqui. Para aprender a estudar gráficos de preços, leia este outro livro aqui.

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