
Toda eleição você ouve candidatos prometendo garantir o seu direito a praticamente tudo, da moradia ao lazer. A promessa soa boa até o momento em que você faz a pergunta que nenhum deles quer responder, que é a pergunta sobre: Quem vai trabalhar para pagar tudo isso?
Se você precisa de uma coisa para sobreviver, essa coisa vira um direito?
Quando os políticos dizem que você tem direito à vida sem explicar o que isso significa, fica fácil imaginar que tudo aquilo que sustenta a sua vida também virou um direito, e a lista cresce naturalmente até incluir o direito à comida, o direito ao remédio, o direito ao transporte, o direito à moradia, ao emprego e até ao lazer. O raciocínio parece inocente e romântico, mas ele esconde um problema grave, porque cada um desses bens precisa ser produzido pelo trabalho de alguém antes de poder ser entregue a você. O pão francês de R$ 1,50 que você compra na padaria só existe porque um agricultor plantou o trigo, um moinho o transformou em farinha, um caminhoneiro a transportou e um padeiro acordou às quatro da manhã para assar. Se você tivesse o direito de receber esse pão sem pagar, alguém nessa cadeia teria o dever de trabalhar sem receber.
Existe um nome antigo para o arranjo em que uma pessoa é obrigada a entregar os frutos do seu trabalho para satisfazer as necessidades de outra que ela nem conhece. Esse nome é escravidão, e o fato de a palavra incomodar não muda a natureza da coisa. Você pode desejar que suas necessidades sejam atendidas, pode trabalhar para atendê-las e pode até receber ajuda caridosa de quem se dispõe a ajudar, mas no momento em que você exige que estranhos sejam forçados a sustentá-lo, você deixou o terreno dos direitos e entrou no terreno da exigência sobre a vida alheia. Isso é muito pior do que as pessoas são capazes de imaginar.
Quem sempre pagou pelas necessidades de quem não podia pagar
Quase toda necessidade humana exige trabalho, tempo e dinheiro, e quando a própria pessoa ainda não pode arcar com esses custos, alguém precisa arcar no lugar dela. Aqui você entende por qual motivo as pessoas do passado construíam grandes famílias, já que a família é a instituição que se sacrifica naturalmente pelos seus membros sem que ninguém chame isso de exploração. Um pai e uma mãe de classe média gastam algo entre R$ 500 mil e R$ 1 milhão para criar um filho até a vida adulta, quando se soma a escola particular, o plano de saúde e tudo o que envolve alimentar e abrigar uma pessoa por mais de duas décadas, e aceitam esse custo enorme porque amor e dever transformam o sacrifício em algo bom e justo (um heroísmo digno de orgulho). Do outro lado da vida, muitos filhos adultos dividem entre si o cuidado dos pais idosos, dos avós e até dos tios, sendo que essa divisão era justamente o que tornava o peso suportável quando as famílias eram numerosas.
A família é uma instituição muito antiga e que funciona muito bem, portanto, como o primeiro e mais legítimo sistema de previdência que a humanidade conheceu. Cada geração investe na seguinte enquanto pode, e recebe da seguinte quando já não pode mais, num ciclo que ninguém precisou impor por lei porque ele nasce da própria natureza dos vínculos de sangue. Não existe nada mais real, nada mais bonito e perfeito do que isso. Toda tentativa de destruir ou difamar essa estrutura bela, chamada família, é uma tentativa extremamente maligna e contrária a tudo que pode ser bom nesse mundo.
A caridade nunca foi um direito de quem recebe
Fora da família, existe uma segunda forma legítima de ter as necessidades atendidas por outra pessoa, que ocorre quando alguém, movido pelo espírito da caridade, decide voluntariamente doar parte do seu trabalho, do seu tempo e do seu dinheiro a quem não é seu parente. Você não é meu parente e está aqui lendo esse texto que é fruto do meu tempo, do meu trabalho e do meu dinheiro, pois manter esse site e criar esses textos não são de graça. Eu poderia ter feito outras coisas com meus recursos, mas eu escolhi escrever esse texto para você.
A religião que fundou o Ocidente, que é a religião católica, colocou a caridade entre os seus pilares, mas com um fundamento que o mundo moderno fez questão de esquecer. O cristão pratica a caridade como resposta de gratidão a Deus e para a glória Dele, e jamais porque o necessitado tivesse algum direito de exigir aquilo que recebe. No catolicismo, a fé, a esperança e a caridade são chamadas de virtudes teologais exatamente porque são dadas por Deus ao homem, já que o ser humano decaído não as desenvolve sozinho, ao passo que a prudência, a justiça, a fortaleza e a temperança são virtudes cardeais que podem ser cultivadas pelo esforço humano.
Essa distinção tem uma consequência prática que interessa a qualquer pessoa que pensa sobre dinheiro e sociedade. A justiça consiste em dar a cada um aquilo que lhe pertence, e o trabalho de outras pessoas não pertence a você. Quando a caridade flui, ela flui como dom, e o dom só existe enquanto é livre, porque um dom exigido sob ameaça deixa de ser dom e passa a ser confisco.
O que acontece quando o governo entra nessa história
Agora pense no que ocorre quando um governo declara que você tem direito a ter suas necessidades, e às vezes até seus desejos, satisfeitos, e em seguida passa a exigir que pessoas que nunca viram você na vida entreguem parte dos frutos do trabalho delas, sob pena de punição e até de prisão por sonegação. O agricultor, o médico e o empresário que financiam esses supostos direitos são pessoas sem nenhum parentesco com você, que jamais se ofereceram como voluntárias e que se veem forçadas a trabalhar de graça uma parte do ano para sustentar necessidades de desconhecidos. No Brasil, onde a carga tributária tira um terço de tudo que os brasileiros produzem.
É por esse motivo que você às vezes encontrará pessoas afirmando que imposto é roubo. Elas dizem isso porque enxergam que o Estado, ao invocar direitos que ninguém poderia possuir, transforma em obrigação coercitiva aquilo que só seria legítimo como dever familiar ou como caridade voluntária, invertendo a ordem natural das duas instituições que sempre cuidaram dos necessitados. Você pode discordar da frase, pode considerá-la exagerada, mas dificilmente conseguirá apontar onde está o erro do raciocínio que a sustenta.
A guerra silenciosa contra a formação de famílias
Você já deve ter percebido que nas últimas décadas existiu um esforço evidente, vindo dos governantes e daqueles que influenciam a cultura, para destruir a ideia de que as pessoas deveriam se esforçar (se sacrificar) para construir uma família grande. Tudo o que se podia fazer para encarecer, dificultar e desmotivar a formação de novas famílias já foi feito, desde a estrutura tributária até a cultura do entretenimento que apresenta o filho como obstáculo à realização pessoal (vendendo um tipo de realização artificial). O resultado está nos números do IBGE, que mostram a taxa de fecundidade brasileira em torno de 1,5 filho por mulher, bem abaixo dos 2,1 necessários para que a população simplesmente se mantenha do tamanho que é.
No lugar das famílias, surgiu por toda parte a figura do casal que se apresenta como pai e mãe de pet, criando cães e gatos como se fossem pessoas, com direito a festa de aniversário e plano de saúde. Pense num casal de trinta e poucos anos, com boa renda, que gasta R$ 1.500 por mês entre ração premium, veterinário e hotelzinho para dois cachorros, enquanto adia indefinidamente a decisão de ter filhos porque a vida está confortável demais para ser perturbada. Esse casal envelhecerá, vai precisar de aposentadoria e de cuidados médicos intensivos, e descobrirá tarde demais que cachorro não paga INSS, não paga plano de saúde (que depende dos recursos dos jovens para financiar os velhos) e não é capaz de cuidar dos “tutores” quando eles precisarem. Pessoas nessa situação tendem, naturalmente, a votar em políticos que prometem transformar cada necessidade num direito, como se esse direito não fosse sair do bolso e do esforço dos filhos que outras famílias tiveram a coragem de criar com muito sacrifício.
A conta que fizeram na França e que vale para o Brasil
Existe uma ideia confortável circulando na Europa, segundo a qual os casais sem filhos seriam até benéficos para as finanças públicas, porque pagam mais impostos e consomem menos serviços e auxílios do que as famílias numerosas. A imagem abaixo, produzida a partir de dados oficiais franceses (DEPP, DREES, CNAF e INSEE) e publicada pelo perfil “larroumecj”, faz a conta completa. Embora o exemplo seja francês, a lógica vale para o Brasil e para todo o Ocidente, porque nossos sistemas previdenciários funcionam pelo mesmo regime de repartição, em que os benefícios dos aposentados de hoje são pagos pelos trabalhadores de hoje.
A imagem acima foi traduzida para o português. O original está em frances.
A tradução do problema francês para a realidade brasileira fica mais fácil de entender. Um casal que se aposenta pelo INSS recebendo dois benefícios médios de R$ 2.000 retira do sistema quase R$ 1 milhão ao longo de vinte anos, fora os custos crescentes com o SUS na velhice, e esse dinheiro sai da contribuição de trabalhadores que são, literalmente, os filhos que outras pessoas criaram pagando do próprio bolso. A primeira contribuição que alguém faz a um sistema de repartição acontece muito antes do primeiro carnê pago, na decisão de criar e educar quem vai sustentar o sistema na geração seguinte, pois existe aqui um investimento privado (da família) de grande porte para formar um filho. É uma verdade básica que políticos e imprensa preferem esconder, porque ela é desagradável e fere os sentimentos de quem fez a escolha de não ter filhos.
A natureza inteira ensina essa lição sem precisar de tabela. A árvore que dá frutos espalha sementes, e dessas sementes nascem novas árvores que produzem a abundância da qual todos se alimentam, ao passo que a árvore estéril apenas consome o solo onde está plantada. É a mesma coisa com as pessoas.
As exceções que você já está pensando agora
É claro que existem exceções, e provavelmente você está pensando nelas neste momento. Um médico que nunca se casou e dedicou a vida a salvar pacientes, ou um casal de empresários sem filhos que gera centenas de empregos, certamente produz mais riqueza para a sociedade do que uma família numerosa cujos filhos se envolveram com o crime e hoje vivem numa cadeia sustentados por todos nós. A objeção é verdadeira no caso individual e irrelevante no agregado, porque as contas públicas e os sistemas de previdência funcionam sobre médias, e na média a coisa mais contributiva que uma pessoa comum pode fazer pelo seu país é criar filhos bem formados para serem adultos virtuosos e produtivos (que geram frutos para a sociedade). As exceções brilham justamente porque são raras, e ninguém financia a aposentadoria de uma geração inteira com exceções.
O destino de quem parou de plantar
Meu objetivo aqui está longe de ser estigmatizar os casais sem filhos ou que gostam de cães, até porque muitos deles não escolheram essa condição, e outros tantos foram vítimas exatamente dos políticos e dos manipuladores de costumes e a cultura que trabalharam por décadas na degradação planejada da família.
O convite é para que você pense sobre essa ideia de que suas necessidades são direitos, pense sobre o direito que as outras pessoas têm aos frutos do próprio trabalho, e pense também sobre o custo real, para você e para todos, das decisões que interrompem a transmissão da vida.
Uma sociedade só se sustenta porque, em cada geração, famílias assumem o sacrifício pessoal de preparar a geração seguinte, e quando esse sacrifício deixa de ser feito não existe decreto capaz de substituí-lo, por mais direitos que se declarem em lei.
A primeira contribuição que qualquer pessoa faz à sociedade é permitir que ela continue existindo.


