Talvez você esteja gastando muito tempo com aquilo que não controla, enquanto ignora uma variável que está sob seu controle e que interfere na renda que você recebe, nas decisões que você toma com o próprio dinheiro e na quantidade de anos que você conseguirá trabalhar com plena capacidade.

O cérebro cansado trabalha como se estivesse alcoolizado

Encontrei um estudo publicado na revista Occupational and Environmental Medicine, conduzido pelos pesquisadores Ann Williamson e Anne-Marie Feyer, comparou o desempenho cognitivo de pessoas privadas de sono com o desempenho de pessoas sob efeito de álcool, e o resultado é assustador (fonte). Depois de 17 a 19 horas acordado, o cérebro humano opera com desempenho equivalente ao de alguém com 0,05% de álcool no sangue, que suficiente para ser detido pela polícia se você fosse pego dirigindo.

Quem acorda às 6 da manhã e vai dormir à meia-noite, repetindo esse padrão durante a semana inteira, passa as últimas horas do expediente e todas as horas da noite funcionando como se tivesse bebido antes de tomar decisões. A pessoa não sente que está prejudicada, porque um dos primeiros sistemas que a privação de sono degrada é justamente a capacidade de perceber a própria degradação.

A RAND Europe, estimou que a privação de sono custa à economia americana até 411 bilhões de dólares por ano, o equivalente a 2,28% do PIB. O mesmo estudo mostrou que trabalhadores que dormem menos de seis horas por noite perdem, em produtividade, cerca de seis dias de trabalho a mais por ano do que aqueles que dormem entre sete e nove horas.

O efeito sobre o emprego, as promoções e o salário

No trabalho, a privação crônica de sono são percebidas pelo seu chefe. A memória de trabalho diminui, e a pessoa começa a esquecer detalhes de reuniões que aconteceram na véspera, enquanto a capacidade de concentração sustentada diminui a ponto de tarefas que exigiam uma hora passarem a exigir duas.

O controle emocional também se deteriora, já que a amígdala cerebral fica até 60% mais reativa a estímulos negativos quando a pessoa dorme mal, segundo outra pesquisa que encontrei (fonte). O colega que responde um e-mail com grosseria desnecessária, ou que perde a paciência numa reunião sem um bom motivo, muitas vezes está exibindo um sintoma de sono ruim, embora todos ao redor interpretem aquilo como defeito de caráter ou incompetência profissional.

As consequências disso na carreira seguem uma lógica fácil de prever. Empregos bem remunerados exigem exatamente as capacidades que a privação de sono destrói, como raciocínio complexo, criatividade para resolver problemas novos e equilíbrio para lidar com pessoas difíceis, de modo que a pessoa cronicamente mal dormida vai sendo empurrada, ao longo dos anos, para funções que exigem menos e pagam menos. A tendência é o isolamento dessa pessoa em bolhas de ressentimento, já que o profissional instável atrai profissionais com o mesmo nível de frustração e acaba fazendo parte de pequenos grupos de queixas mútuas na empresa ou em redes sociais. Esse ambiente de insatisfação alimenta a ilusão protetora de que a estagnação na carreira decorre exclusivamente da injustiça dos chefes, da cultura da organização, tirando o indivíduo de enxergar que a própria mente sabotou sua capacidade de entregar resultados.

Uma pessoa nessa situação não é promovida porque não demonstra a consistência que a promoção exige, e em ciclos de demissão ela aparece nas listas porque entrega menos do que entregava antes, sem que ninguém, nem ela mesma, consiga apontar o momento exato em que o desempenho começou a cair.

Existe até uma tentativa de medir esse efeito em dinheiro. Os economistas Matthew Gibson e Jeffrey Shrader publicaram na Review of Economics and Statistics um estudo mostrando que o aumento de uma hora na média semanal de sono está associado a um crescimento salarial de cerca de 5% no longo prazo (fonte). Para entender melhor esse número, pense em alguém que ganha R$ 5.000 por mês. Uma diferença de 5% representa R$ 250 mensais, e se esses R$ 250 fossem investidos todo mês durante vinte anos a um retorno real de 5% ao ano, o resultado passaria de R$ 100 mil em poder de compra de hoje. Certamente a situação seria pior se essa pessoa fosse um empreendedor. Esse é o preço aproximado de dormir uma hora a menos do que você precisa, calculado apenas pelo lado do salário, antes de considerarmos o que o sono ruim faz com as suas decisões de investimento.

O investidor que dorme mal avalia risco errado

Encontrei outro estudo interessante. O neurocientista Vinod Venkatraman conduziu uma série de experimentos em que voluntários privados de sono tomavam decisões financeiras dentro de um aparelho de ressonância magnética. Ele descobriu algumas coisas preocupantes, principalmente para quem investe em renda variável (fonte). Depois de uma noite sem dormir, as áreas cerebrais que antecipam ganhos ficam mais ativas, ao passo que as áreas que processam perdas ficam menos responsivas, o que significa que a mesma pessoa, diante da mesma oportunidade, passa a enxergar o prêmio com evidente e o risco com menos evidente. O participante do experimento não escolhia pior por falta de inteligência, e sim porque o cérebro que compara risco e recompensa estava fisicamente desregulado naquela manhã.

Isso explica um fenômeno curioso documentado no mercado financeiro americano. Os pesquisadores Mark Kamstra, Lisa Kramer e Maurice Levi mostraram que, nas segundas-feiras seguintes à mudança do horário de verão, quando milhões de pessoas perdem uma hora de sono ao mesmo tempo, os retornos das bolsas apresentam quedas anormais, num efeito que eles chamaram de anomalia do horário de verão. Se a perda coletiva de uma única hora de sono é capaz de aparecer nas estatísticas de um mercado inteiro, imagine o que meses de sono fragmentado fazem com a carteira de um investidor individual que decide sozinho, de madrugada, se vende tudo no pânico ou se compra aquele ativo da moda no topo da euforia.

Na prática do investidor brasileiro comum, o sono ruim aparece nas decisões que ele mesmo não consegue explicar depois. Aparece quando ele abandona a estratégia de aportes mensais porque leu uma manchete alarmista às duas da manhã, e aparece quando ele concentra dinheiro demais numa ação especulativa porque naquele dia o cérebro dele estava superestimando o ganho e anestesiado para a perda. A constância, que é a virtude mais rentável do investidor de longo prazo, depende de um sistema nervoso descansado, porque resistir ao impulso de mexer na carteira exige o tipo de autocontrole que a privação de sono prejudica.

O efeito composto trabalha contra quem dorme mal

Todo leitor deste blog entende juros compostos aplicados ao dinheiro, mas poucos param para pensar que o mesmo mecanismo se aplica ao corpo. O salário que cresce 5% a menos por ano composto durante duas décadas, somado às decisões de investimento ligeiramente piores tomadas centenas de vezes ao longo da vida, produz uma diferença patrimonial que ninguém consegue atribuir a uma causa única, justamente porque ela foi construída em parcelas pequenas demais para serem notadas. A privação de sono funciona como uma taxa de administração cobrada sobre a sua vida inteira, recorrente.

Existe ainda a conta da saúde, que chega com atraso e com juros. O sono cronicamente ruim está associado a maior incidência de hipertensão e de diabetes tipo 2, sendo que a apneia obstrutiva do sono, segundo o estudo EPISONO realizado na cidade de São Paulo, atinge cerca de um terço da população adulta, com a maioria dos casos sem diagnóstico (fonte). Uma pessoa com apneia não tratada acorda dezenas de vezes por noite sem saber, passa décadas com o organismo sob estresse e depois financia, com o próprio bolso e com os próprios anos de vida, o tratamento de doenças que talvez nunca aparecessem. A capacidade de gerar renda com o trabalho é o maior ativo da maioria das famílias de classe média, e essa capacidade encurta alguns anos toda vez que o corpo passa uma década inteira dormindo mal.

Um relógio no pulso para descobrir o que acontece enquanto você dorme

O que vou compartilhar agora é algo que me ajudou muito, pois o problema central do sono é que você está inconsciente enquanto ele acontece. Isso pode ser resolvido com o uso de relógios e pulseiras com monitoramento de sono, que medem movimento, frequência cardíaca e oxigenação do sangue durante a noite e transformam isso em um relatório que você lê no dia seguinte.

É claro que esses aparelhos não substituem um exame nem um médico, mas eles cumprem a função de mostrar padrões que você jamais perceberia sozinho, como o fato de você acordar muitas vezes por noite, de a sua saturação de oxigênio cair durante a madrugada ou de o seu sono profundo durar vinte minutos quando deveria durar mais de uma hora. Quando o relatório mostra um padrão ruim se repetindo por semanas, você tem em mãos um motivo objetivo para procurar ajuda profissional, em vez de continuar atribuindo o cansaço ao estresse do trabalho.

Para quem quer começar gastando pouco, o Amazfit Bip (veja aqui) é a opção, porque entrega monitoramento de fases do sono, oxigenação e frequência cardíaca com bateria que dura cerca de duas semanas. Um degrau acima está o Huawei Watch Fit (veja aqui), que usa o sistema TruSleep para acompanhar as fases do sono e gerar sugestões. Para quem pode investir mais, o Samsung Galaxy Watch (veja aqui), nas gerações mais recentes, oferece a detecção de sinais de apneia do sono através do sensor de oxigenação, além da análise detalhada de fases e do relatório de ronco. Quem usa iPhone encontra no Apple Watch (veja aqui) que incluindo o mesmo alerta de possível apneia nas versões recentes.

Na minha opinião, o dispositivo mais confortável para monitorar o sono é do tipo pulseira, como o Xiaomi Band 10 (veja aqui). Você não percebe que está com ela enquanto dorme, além de ser a solução mais barata de todas.

Em qualquer um dos casos, estamos falando de um gasto entre algumas centenas de reais e pouco mais de dois mil. É um investimento válido para monitorar a sua saúde.

Você monitora o que não controla e ignora o que controla

Ao longo dos anos escrevendo sobre finanças, percebi que muitos leitores dedicam muito tempo acompanhando variáveis sobre as quais não têm poder algum, como dados sobre a economia e política. Essa vigilância produz ansiedade e não aumenta o seu patrimônio, porque nenhuma quantidade de preocupação sua altera a realidade econômica. Enquanto isso, a variável que mais afeta a sua produtividade, o seu julgamento e a sua saúde de longo prazo passa todas as noites sem nenhum acompanhamento, embora ela seja das poucas que respondem diretamente às suas próprias decisões.

Monitorar o próprio sono é um ato de humildade, porque significa admitir que o seu maior risco talvez não esteja no noticiário, e sim em você. Comece medindo, porque ninguém corrige aquilo que não enxerga.