O índice P/L ou “Preço da Ação dividido pelo Lucro por Ação” é um dos indicadores mais importantes para pequenos e grandes investidores que compram ações na bolsa.

O P/L nos diz quanto os investidores estão aceitando pagar por cada R$ 1 de lucro gerado anualmente por cada ação de empresa negociada na bolsa. Os investidores enxergam as ações como máquinas de gerar lucro e por isso é importante saber o preço pago por essa máquina e sua capacidade de produzir lucro.

Vou apresentar um exemplo para facilitar o entendimento.

Imagine que seu amigo está oferecendo para você uma máquina de ganhar dinheiro. Basta ligar na energia, colocar alguns insumos e esperar alguns minutos para ter produtos prontos para vender com um determinado lucro. A máquina parece maravilhosa. Mas você não pode comprar essa máquina sem antes fazer algumas perguntas para o seu amigo:

  1. Quanto custa a máquina? Vamos imaginar que custe R$ 100.000,00
  2. Quanto a máquina produz de lucro por ano? Vamos imaginar que você terá R$ 20.000,00 de lucro líquido por ano.
  3. Quanto tempo devo esperar para a máquina devolver os R$ 100 mil que vou investir nela?

Se após descontar todos os custos (energia, insumos, impostos, trabalho etc.) sobrar R$ 20 mil por ano de lucro, você terá seus R$ 100 mil de volta na forma de lucros depois de 5 anos, já que 100 mil dividido por 20 mil é 5.

Podemos dizer que o Preço/Lucro (P/L ) do investimento na máquina é 5, ou seja, você terá o dinheiro que você investiu na máquina depois de 5 anos de lucros, caso esse lucro se mantenham os mesmos R$ 20 mil por ano por 5 anos. Podemos dizer que seu lucro anual será de 20% ao ano já que 20 mil dividido por 100 mil é 0,2. Multiplicando 0,2 por 100 temos 20%. Também podemos dizer que a máquina está sendo negociada por 5 vezes o seu lucro anual. Se você encontrar uma máquina concorrente que custa 10 vezes o lucro anual, você certamente vai entender que essa máquina concorrente é mais cara, pois serão 10 anos de lucros para pagar o investimento.

Mas vamos imaginar que você acredita que os lucros que a máquina produz irão aumentar a cada ano. Vamos imaginar que você acredita em lucros de R$ 20 mil no primeiro ano, R$ 30 mil no terceiro ano e R$ 50 mil nos próximos 3 anos totalizando R$ 200 mil de lucros em 5 anos. Provavelmente você teria a percepção de que está diante de um negócio ainda melhor e até aceitaria pagar mais caro pela máquina de R$ 100 mil, supondo a possibilidade de ter aumento dos lucros a cada ano. Talvez aceite pagar 10 vezes o lucro anual (R$ 200 mil) caso acredite que a máquina aumentará sua geração de lucro a cada ano.

Na bolsa de valores podemos usar o mesmo modo de pensar. Uma empresa é uma máquina de gerar lucros. Uma ação é a menor parte de uma empresa. Quando você compra uma ação, você compra a menor parte de uma grande máquina de gerar lucros. A ação dá direito de receber a parte do lucro que ela representa. O preço de uma ação nada mais é do que a média de todas as expectativas e percepções que os investidores possuem com relação a capacidade da empresa gerar lucros no futuro. Quanto mais eles acreditam que ela poderá gerar lucros no futuro, mais eles aceitam pagar pela ação da empresa.

Teoricamente é isso que produz as constantes variações nos preços das ações. É a constante mudança de expectativas sobre os resultados futuros das empresas.

Compramos lucros futuros:

Quando os investidores compram ações, eles estão pagando hoje pelo lucro que acreditam que irão receber amanhã na forma de dividendos (se os lucros foram distribuídos) ou na forma de valorização da empresa (se os lucros forem investidos de forma inteligente pelos gestores da empresa).

Sendo assim, quanto maior o Preço/Lucro, mais cara é a ação da empresa, pois vai exigir mais anos de espera para se obter de volta o valor investido. Se a máquina de ganhar dinheiro que apresentei no exemplo inicial gerasse apenas R$ 2 mil de lucro por ano, seria necessário esperar 50 anos (P/L de 50) para ter os R$ 100 mil investidos de volta na forma de lucros.

Isso certamente seria desmotivador para o investidor, pois nem todos querem esperar 50 anos para ter seu investimento de volta, a não ser que fosse possível aumentar o lucro de R$ 2 mil por ano para R$ 20 mil por ano nos próximos anos. Dessa forma, o investidor aceitaria pagar por uma máquina de P/L igual a 50, quando acredita e aposta na crença de que, no futuro, a máquina produzirá R$ 20 mil ou mais de lucro por ano.

É por isso que podemos encontrar muitas empresas na bolsa de valores com P/L muito elevado. Esse P/L elevado tem como base a crença e a aposta de que os lucros serão crescentes.

Somos todos especuladores:

Pobre iniciante na bolsa que acredita que a análise dos fundamentos financeiros das empresas é menos especulativa que a análise técnica dos preços das ações. Mais um dos muitos mitos que espalham pela internet envolvendo os investimentos.

O que os investidores fazem quando analisam fundamentos e gráficos de preços é verificar quais apostas possuem maior probabilidade de sucesso. Nunca existem certezas absolutas com relação aos futuros lucros das empresas.

Muitos acreditam (ingenuamente) no discurso de que os investidores de longo prazo não especulam. Os de longo prazo são os que mais especulam sobre o futuro e precisam esperar muito tempo para saberem se as expectativas se tornarão realidade. Os de curto prazo descobrem mais rapidamente quando estão certos ou errados.

Através da análise fundamentalista e análise técnica estudamos o passado e o presente para identificar uma tendência futura. Empresas com bons fundamentos tendem a crescer e lucrar no futuro,  mas isso está longe de ser uma certeza. Ações com preços em tendência primária de alta, tendem a continuar em alta por um bom tempo, até que a tendência reverta. Nos dois casos estamos olhando uma trilha percorrida no passado para tentar identificar a direção que a empresa está seguindo.

Detalhe que poucos percebem:

Agora existe um detalhe que nem todos percebem e que influencia a decisão de todos os investidores quando observam os lucros das empresas em relação ao preço pago por suas ações.

Esse detalhe é o ponto de referência que agora é bem menor: “renda fixa com os menores juros da história”.

Não faz muito tempo que os investimentos de renda fixa no Brasil estavam pagando juros de quase 15% ao ano, sem qualquer risco.

Então, se você tivesse R$ 100 mil para investir em uma máquina de dinheiro, você provavelmente faria uma comparação entre esse investimento de risco ou manter os R$ 100 mil aplicados na renda fixa para produzir 15% de juros ao ano ou R$ 15.000,00 sem riscos.

Talvez você só julgasse coerente investir R$ 100 mil na máquina se ela fosse capaz de gerar 30% de lucros por ano ou R$ 30 mil, pois, dessa forma, o risco maior seria compensado por ganhos maiores do que os oferecidos pela renda fixa. Os ganhos estariam acima do custo de oportunidade, que seria o quanto você deixaria de ganhar na renda fixa para ganhar na renda variável.

Essa também era a mentalidade de muitos investidores, pequenos e grandes, diante de recursos financeiros que poderiam ser investidos na renda fixa ou renda variável como ações, imóveis, negócios etc.

Cuidado com as comparações

Por isso, devemos tomar cuidado ao observar um gráfico como o que temos logo abaixo. Não faz muito sentido comparar o preço que os investidores aceitam pagar hoje pelas ações que geram lucros e o preço que os investidores aceitavam pagar no passado quando os juros da renda fixa tinham 2 dígitos. Vamos entender melhor:

O gráfico abaixo mostra o P/L de todas as ações que fazem parte do índice Bovespa (ações mais negociadas da bolsa) desde o ano de 2009 até fevereiro de 2020 (linha azul). O objetivo de quem fez o gráfico é verificar se a relação Preço/Lucro que as ações apresentam em 2020 estão muito elevadas (ações caras) ou se estão baixas (ações baratas) na comparação com o passado.

Esse tipo de comparação não é muito coerente, pois no passado os juros da renda fixa estavam acima de 10% ou até de 20% ao ano e hoje temos juros de pouco mais de 4% ao ano. No passado, os lucros gerados pelas empresas precisavam ser muito elevados para compensar o risco de se investir em ações, já que os ganhos na renda fixa eram altos e sem qualquer risco (fonte do gráfico). As pessoas aceitam pagar mais caro por ações de empresas lucrativas quando os juros da renda fixa estão baixos. Vou explicar o gráfico logo abaixo.

Crenças do mercado

Existe uma crença generaliza de que a relação Preço/Lucro das ações deve ser menor que 14, pois acima disso a ação estaria muito cara.

No gráfico acima, a linha laranja representa o P/L médio de ações de empresas listadas na bolsa que atendem ao mercado doméstico (excluindo os bancos), como as grandes varejistas.

Podemos observar que o nível do P/L no início de 2020 (23,81) está acima dos níveis de 2009 (19,92). Já o índice Bovespa (linha azul) e ações dos bancos (linha cinza), ainda estão abaixo do que já estiveram no passado. Podemos observar que a crise de 2016 reduziu o P/L de todos os setores, pois todas as empresas tinham expectativas de lucros menores e isso se refletiu na queda generalizada no preço de praticamente todas as ações.

Depois de 2016 iniciamos um ciclo de recuperação (muito lento) da economia e a relação de P/L de todos os setores crescerem, mas uns tiveram maior crescimento que outros. As empresas que atendem o mercado interno, como as empresas de varejo, tiveram grande crescimento do indicador P/L. Devemos ler isso como um aumento nas expectativas dos investidores sobre o aumento de lucro futuro das empresas.

Isso significa que existe uma grande expectativa de que as empresas de varejo e as que atendem o mercado interno elevem seus lucros por ação nos próximos anos e por isso, na média, o P/L dessas empresas está acima de 23, ou seja, se você comprasse ações de todas elas levaria 23 anos para ter seu dinheiro de volta na forma de lucros, se os lucros se mantivessem os mesmos. A questão é que os investidores acreditam que os lucros vão crescer bastante, fazendo o P/L atingir valores bem maiores. Se realmente crescerem, o P/L de 23 não representaria uma ação cara. O problema é esse “Se realmente crescerem”, por isso mesmo na análise fundamentalista estamos sempre especulando sobre o futuro.

No caso dos bancos, seu P/L é de 9 em média. Esse P/L menor que 14 poderia ser entendido como uma oportunidade a não ser que os investidores estejam acreditando que os lucros dos bancos serão cada vez menores no futuro. A verdade é que existe uma expectativa de que as margens de lucros dos bancos serão reduzidas no futuro. Existe a aposta de que os bancos podem sofrer concorrência de empresas de tecnologia e seus aplicativos.

Imagine se uma empresa como o Google resolvesse criar uma instituição financeira global, oferecendo conta corrente para qualquer pessoa que tenha um celular. Imagine que ele faça isso sem cobrar qualquer taxa, apenas para se tornar a maior instituição financeira do planeta e depois cobrar taxas pequenas ou até invisíveis para o cliente. Agora imagine essas empresas de tecnologia oferecendo crédito, empréstimos, financiamentos, investimentos, loja de compras parceladas, conectando pessoas e empresas que possuem dinheiro para emprestar/investir com pessoas e empresas que precisam de empréstimos ou investimentos. O Google sabe tudo que você faz na internet. Talvez ele conheça mais você do que você mesmo se conhece. Imagine o potencial de uma instituição financeira que sabe tudo sobre você, pois rastreia sua vida 24h por dia. Empresas como o Google já estão desenvolvendo a estrutura para que isso aconteça (fonte). Muitos investidores acreditam que assim como as empresas de tecnologia estão afetando drasticamente diversos setores (Amazon, Uber, Netflix, Ifoods etc.) elas podem atingir o setor financeiro no futuro.

Veja, tudo isso são expectativas, especulações e apostas sobre o futuro que acabam se “materializando” no preço das ações em relação ao lucro que elas geram ou podem gerar no futuro.

Ao avaliar o histórico do P/L de uma empresa onde queremos investir, devemos considerar que, no passado, o P/L exigido pelos investidores era menor, ou seja, o preço da ação precisava ser bem pequeno em relação ao lucro gerado por ela anualmente, pois juros elevados já poderiam ser conquistados sem qualquer risco na renda fixa. Em um ambiente de juros elevados a economia tende a crescer menos e os lucros esperados para o futuro são menores. Se as expectativas de lucros futuros são maiores, os P/L’s das ações tendem a ser maiores

Ainda me recordo quando as pessoas que tinham imóveis alugados reclamavam da rentabilidade de 0,8% ao ano, pois na renda fixa era possível ganhar mais sem ter tanta dor de cabeça. Lembro quando as pessoas reclamavam de dividendos de 8% ao ano ofertados por algumas empresas, pois a renda fixa pagava muito mais do que isso sem qualquer risco (quando os juros estavam acima de 2 dígitos). Hoje as pessoas aceitam dividendos menores, lucros menores das empresas, imóveis e outros investimentos de renda variável por terem como referência os juros que a renta fixa paga atualmente.

No gráfico acima é fácil perceber que na maior parte do tempo, nos últimos anos, os juros que servem de base para a renda fixa (Taxa Selic) estiverem na maior parte do tempo acima de 10%. A realidade é bem diferente nos dias de hoje e por esse motivo será cada vez mais comum que o investidor aceite investir em ações de empresas que oferecem lucro pequeno ao ano.

Existem muitos outros indicadores que devemos avaliar junto com o P/L. Evite comprar uma ação só por ter identificado um P/L baixo. Evite acreditar na ilusão de que você é o único “inteligente” do mercado que identificou uma ação barata, com P/L baixo, por ter preço baixo diante do lucro produzido anualmente.

Provavelmente existem outros indicadores fundamentalistas com históricos ruins que justificam o P/L baixo. Pode ser que a empresa esteja perdendo competitividade, perdendo mercado (mesmo ainda sendo líder). Pode ser que o modelo de negócio da empresa esteja ultrapassado, com risco de produzir lucros cada vez menores no futuro. Pode ser que o mercado não goste dos atributos dos gestores da empresa. Pode ser que a empresa não tenha mais potencial de crescimento.

Para saber mais sobre esse e uma dezena de outros indicadores importantes eu recomendo a leitura do livro sobre investir na bolsa através da Análise Fundamentalista.

Recomendo a leitura de dois livros: Como Investir na Bolsa: Análise Fundamentalista e o livro Como Investir na Bolsa: Análise Técnica. Conheça todos os nossos livros sobre investimentos visitando aqui.

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