Com base em dados divulgados pela Anbima (fonte), preparei essa tabela que mostra a captação líquida dos fundos de investimento de ações e renda fixa entre 2002 e maio de 2022. Adicionei o nome dos presidentes que estavam no poder em cada ano. Captação líquida representa quanto as pessoas investiram ou sacaram dos fundos naquele ano. Os valores estão em milhões de reais. Continue lendo para entender como funciona e algumas reflexões sobre a situação.

O gráfico nos mostra que em 2008, durante a crise financeira que atingiu o mundo inteiro, tivemos R$ 64 bilhões de saques nos fundos de renda fixa e 9 bilhões nos fundos de ações. Era uma crise no sistema financeiro com estouro de bolhas e falência de bancos nos EUA e em outros países.

Depois de 2008 a bolsa brasileira entrou em uma tendência primária de baixa que durou até o impeachment em 2016. Os problemas foram gerados por medidas que afetavam a economia com a justificativa de que o Governo deveria ser responsável pelo crescimento do país. É o velho problema das consequências “não intencionais”.

Nesse período entre 2008 e 2016, muitos pequenos investidores perderam dinheiro na bolsa de forma consistente. gerando um desinteresse generalizado por esse tipo de investimento.

Tentando produzir um “crescimento artificial” da economia, o governo gastou como nunca. Isso resultou em uma alta consistente da inflação e bolhas como a dos imóveis.

O gráfico logo abaixo está disponível no Clube dos Poupadores com atualização constante neste endereço aqui (Gráfico Selic x PIB, Inflação e Juro Longo). Lá na página do gráfico, na parte inferior, eu escrevi um pequeno texto sobre o “esquema” que envolve juros, inflação, PIB etc.

BR10Y representa a taxa de juros de títulos públicos prefixados com vencimento em 10 anos. BZSTSETA representa a taxa básica de juros da economia (Taxa Selic). BZPIIPCY é a inflação acumulada nos últimos 12 meses. BZGDYOYPCT é a taxa de crescimento do PIB nos últimos 12 meses.

Para piorar a situação, poucas pessoas conheciam títulos públicos, CDBs e outros investimentos de renda fixa entre 2008 e 2016. As pessoas perdiam dinheiro na poupança, que sofreu uma alteração que a tornou pior ainda, (fonte). Era comum o “investimento” em títulos de capitalização e fundos oferecidos por bancos com taxas administrativas de 3% ou mais. Foi nesse período que criei o Clube dos Poupadores em 2013 para compartilhar meus conhecimentos sobre investimentos. Logo depois comecei a escrever uma série de livros que atualizo regularmente.

Os fundos, como os de ações e multimercado, são obrigados a vender suas ações quando os clientes solicitam o resgate do dinheiro. Isso cria uma espécie de efeito “bola de neve” durante o período de crise que pode durar vários anos. Nesse processo de destruição da carteira do fundo é necessário se desfazer até de ações de boas empresas. Assim ocorre uma queda generalizada de todas as ações. De certa forma isso cria oportunidades no final das grandes crises para quem domina as ferramentas para identificar boas ações.

Veja como o Índice Bovespa se comportou no período através do gráfico abaixo ou use essa ferramenta aqui. Fiz um gráfico mensal onde cada barra representa o movimento do índice Bovespa em cada mês. Observe a grande tendência de baixa iniciada em 2010. Em 2011 tivemos o anúncio da Nova Matriz Econômica, uma forma de conduzir a economia através de medidas heterodoxas, desenvolvimentistas e com características que arruínam a economia no longo prazo com: disparada da dívida pública, inflação e juros altos. Só funciona até o dinheiro acabar. É um exemplo de consequência não intencional e de insistência em algo que nunca funciona.  Depois temos uma tendência de alta que se iniciou com o impeachment e a emenda do Teto de Gastos. A tendência foi perdida na crise mundial do “Fique em casa”.

 

 

O que marca o otimismo com relação a bolsa de valores em 2016, além do impeachment, foi a Emenda do Teto de Gastos. A mesma emenda que vem sendo ameaçada desde a crise mundial do “Fique em Casa”. Em ano eleitoral, alguns candidatos já falaram claramente que não existirá Teto de Gastos no seu governo. Faça esse exercício: procure no Google pelo nome do seu candidato preferido seguido da palavra “Teto de Gatos”. Você verá que nenhum candidato apoia o Teto de Gastos. Uns querem mexer e os outros querem acabar com ele.

Você entregaria o seu talão com cheques assinados e com valores em branco para um político gastar livremente? Você daria para um político uma procuração autorizando-o a fazer dívidas em seu nome? Você entregaria a senha e o seu cartão de crédito para um político gastar o seu dinheiro livremente? É assim que o governo funciona. O teto de gastos apenas limita o tamanho do estrago que ele fará em seu nome. É claro que nenhum político gosta de limitações desse tipo. Então você deveria criticar qualquer político que tenta gastar o seu dinheiro sem limitações.

Isso significa que, independentemente do vencedor das próximas e de todas as futuras eleições, nenhum político defende o Teto de Gastos por muito tempo. Alguns políticos querem mexer no teto em ano eleitoral, outros são contra o teto e outros são historicamente envolvidos em esquemas de corrupção como os investigados na Lava-jato.

Aqui estava a justificativa para o Teto de Gastos retirado de um documento público, após o estrago feito até 2016:

O Brasil tem um desequilíbrio fiscal crônico, que é decorrente do crescimento acelerado da despesa pública ao longo das últimas décadas. Isso levou a um aumento do déficit e da dívida pública, bem como à expansão da carga tributária. Essas formas de financiamento da expansão do gasto se esgotaram: a carga tributária chegou a mais de 33% do PIB, e a sociedade rejeita expansões adicionais… Portanto, financiar a expansão do gasto com mais impostos significaria impor travas adicionais ao parco ritmo de crescimento econômico do País… Se o Brasil não persistir em uma política de ajuste fiscal, chegará a uma situação de insustentabilidade da dívida, que é aquela em que se eleva o risco de não pagamento, o que costumeiramente se dá pela aceleração da inflação como forma de desvalorizar as obrigações do Tesouro. Retroceder no caminho do ajuste fiscal também levará à crise e à estagnação econômica.

A redução da despesa (do governo) leva à queda dos juros e do risco de crise da dívida. Melhoram as expectativas dos empreendedores e amplia-se a oferta de crédito. O investimento aumenta. Paralelamente, a racionalização tributária gera ganhos significativos de produtividade, que também impulsionam a economia. O maior crescimento ajuda na consolidação do ajuste fiscal, ao melhorar a arrecadação pública.

O documento acima é da equipe do Eduardo Guardia (fonte), falecido em abril de 2022, ministro da Fazenda até 2008, antecessor do Paulo Guedes.

Sobre os ministros do passado, uma visão totalmente oposta ao do Teto de Gastos estava presente nas decisões do ministro da Fazenda que tivemos entre 2006 e 2014 (este aqui). Depois por este aqui. Eram defensores da Nova Matriz Econômica que fez o país flertar com o pulo no abismo. Você deve se recordar dos CDBs prefixados de 18% ao ano e indexados ao IPCA que pagavam IPVA + 8% no tempo que a bolsa estava atingindo o fundo do poço de 2016.

Os dois gráficos abaixo são formas diferentes de representar os dados da tabela acima. Temos a captação em milhões de reais nos fundos de ações entre 2002 e maio de 2022. Fundos movimentam dezenas de bilhões de reais em períodos curtos e inevitavelmente produzem grandes movimentos na bolsa. Isso acaba criando oportunidades já que todas as ações perdem valor, até as ações de boas empresas, pois os fundos são obrigados e vender tudo para resgatar o dinheiro dos clientes que querem sair do investimento.

 

Até julho de 2022 os saques atingiram mais de R$ 45 bilhões. Certamente uma parte significativa disso se deve a crise mundial que está se desenvolvendo com alta da inflação e todos os países iniciando ciclos de alta dos juros. A ideia é produzir uma recessão para frear os preços. Mas não podemos deixar de observar que existiram diversas declarações e decisões contra o Teto de Gastos partindo de todos os políticos sem exceção usando 1001 justificativas.

Fica bem evidente que político nenhum leva a sério a ideia de que não se deve gastar mais do que se arrecada. Alguns políticos defendem o calote da dívida pública, ou seja, o calote dos títulos públicos que já foram vendidos para a sociedade. Outros defendem a impressão de dinheiro, mesmo que isso resulte em disparada da inflação.

Em muitos países, a inflação é maior que os juros pagos pelos títulos públicos. O maior devedor de todos (o Governo) se beneficia quando o dinheiro perde valor já que a sua dívida pública é paga com dinheiro sem valor. Quando eles forçam a queda dos juros, resultando em inflação alta e juros reais negativos, eles estão sabotando as economias da sociedade.

Por fim, se você fica emocionalmente abalado(a) quando lê alguém falando sobre um político da sua preferência, é importante entender que não existe nenhuma compatibilidade entre os interesses dos políticos e os interesses das famílias que buscam conquistar uma vida financeira estável e equilibrada. São pessoas atuando em lados opostos.

Com o tempo você vai perceber que os políticos se dividem em apenas dois grupos: os péssimos e os ruins.

Os péssimos são os que destroem economias e sonham com uma revolução. Os ruins são um mal necessário que existem para impedir que os péssimos políticos assumam o poder e destruam o sistema sem ter nada melhor para pôr no lugar.

O seu trabalho é tentar identificar qual é o péssimo e qual é o ruim. O político bom só existe no “mundo das ideias” de Sócrates, aquele grego que foi condenado a morte por falar o que pensava sobre os políticos.

Dedique seu tempo e a sua energia aprendendo mais sobre como o dinheiro funciona e evite se emocionar pelos políticos, pois eles não ligam para os seus sentimentos.

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