Neste artigo, quero mostrar para você como é simples investir em títulos públicos americanos, emitidos pelo Tesouro Direto dos EUA, sendo um pequeno investidor brasileiro.

Este é mais um daqueles investimentos que ninguém vai ligar para você oferecendo. São oportunidades que só podem ser vistas pelos poucos que dedicam algum tempo estudando sobre investimentos. Sempre é importante lembrar que o meu objetivo aqui não é recomendar investimentos para você. O meu objetivo, como educador, é motivar você a estudar sobre todas as possibilidades de investimentos que existem. Não existem possibilidades quando você não tem olhos preparados para vê-las. Esse tipo de preparo só depende do seu esforço.

Emprestar o seu dinheiro para os EUA ou para o Brasil?

Quando compramos títulos públicos de um país estamos emprestando o nosso dinheiro para o governo desse país em troca de alguma recompensa na forma de juros. Esse governo tributa as riquezas geradas por sua população e com isso paga suas dívidas no futuro.

Os títulos públicos americanos, treasury bonds (títulos do tesouro), são conhecidos como um dos investimentos de renda fixa mais seguros do mundo, pois o governo dos EUA tributa a maior economia que existe.

O gráfico abaixo mostra o PIB dos Estados Unidos (em bilhões de dólares) desde a década de 60. Até o ano passado o PIB americano representa 17,65% da economia mundial (mais de US$ 20 trilhões/ano). Observe que o crescimento do PIB americano é forte e consistente nas últimas décadas, ou seja, é uma fonte sólida de recursos para ser tributado pelo governo.

Para efeito de comparação, logo abaixo temos o PIB brasileiro que é 10 vezes menor (menos de 2 trilhões de dólares por ano). Observe a trajetória turbulenta e instável de crescimento do nosso PIB nas últimas décadas.

Vale destacar que o PIB é o total de riquezas que as empresas e os trabalhadores geram por ano em um país. Você nunca deve esquecer que governos não geram riquezas. Eles apenas tomam e consomem parte das riquezas geradas pela sociedade através da cobrança de impostos, taxas e contribuições.

Quanto mais riquezas a sociedade de um país gera, mais dinheiro o governo desse país pode tomar dessa sociedade, utilizando aquele velho e equivocado argumento de que “eles sabem o que é melhor fazer com o nosso dinheiro”.

Quando os governos pedem dinheiro emprestado para a sociedade (já que os impostos nunca são suficientes) através da venda de títulos públicos, os juros prometidos são pagos tomando mais dinheiro das empresas e trabalhadores que pagam impostos.

Se o governo tributa a riqueza gerada pela sociedade, olhando os dois gráficos acima que mostram a riqueza gerada, fica bem fácil entender que é mais seguro emprestar dinheiro para o governo de um país como o dos EUA do que emprestar dinheiro para um governo como o do Brasil. Somente juros mais elevados justificariam o risco de emprestar dinheiro para o governo brasileiro através de títulos públicos.

Quem empresta mais dinheiro para os EUA em troca de juros?

Os treasuries americanos são títulos públicos demandados por investidores de todos os portes e de todos os países. Desde o pequeno investidor, passando por instituições financeiras e até governos de outros países compram títulos públicos dos EUA.

Grande parte das reservas internacionais que o governo brasileiro possui estão na forma de títulos públicos americanos. O governo brasileiro é o quinto maior detentor de títulos públicos americanos entre todos os demais países.

Só perdemos para a China, Japão, Reino Unido e Irlanda (fonte). No lugar de guardar uma grande quantidade de dólares como reserva internacional, que não rendem juros, muitas vezes os países preferem guardar títulos públicos americanos que rendem juros e podem ser vendidos no mercado internacional com grande facilidade, caso os países precisem de dólares. O gráfico abaixo mostra os países detentores de títulos públicos americanos. Observe que Japão e China são os dois países que mais emprestaram dinheiro para o governo americano.

Praticamente todos os países do mundo emitem títulos públicos que funcionam como uma forma de “pedir dinheiro emprestado” para a sociedade. Os treasuries devem ser entendidos como títulos de dívida onde você passa a ter o direito de receber do governo americano o valor investido no título + juros pagos em dólares. Cabe a você como investidor avaliar se os juros oferecidos compensam o risco.

Como investir em treasury bonds?

Se você fosse um cidadão americano poderia investir através dos leilões que acontecem no “Tesouro Direto” dos EUA que se chama “Treasury Direct” e fica no site https://www.treasurydirect.gov/.

Como investidor brasileiro a forma mais fácil, rápida e barata de negociar títulos públicos americanos e de outros países é através dos ETFs. Os próprios investidores americanos fazem isso por ser a forma mais prática de se montar uma carteira diversificada de títulos emitidos por governos de diversos países do mundo.

Os ETFs são cotas de fundos negociados na bolsa de valores. Ao comprar um único ETF de título públicos, por algumas dezenas de dólares, será como comprar uma pequena parte de uma carteira que pode ser composta por centenas ou milhares de títulos públicos diferentes. Além disso muitos ETFs de títulos públicos pagam juros mensalmente para os investidores.

Atualmente existem diversas corretoras americanas voltadas para os investidores estrangeiros, algumas até oferecem serviços direcionados para o investidor brasileiro. Eu falo sobre uma dessas corretoras no meu livro sobre investir no exterior. Existem diversos ETFs que investem em títulos públicos que possuem características específicas. Agora será importante entender quais títulos públicos existem nos EUA.

Os principais títulos públicos americano:

Treasury Bill, também conhecido como Bill ou T-Bill. Podemos chamar de “Contas do Tesouro”. São títulos públicos com prazo de vencimento menores do que 1 ano. Geralmente possuem prazos de vencimento de quatro, oito, 13, 26 e 52 semanas (fonte). São vistos como títulos de curto prazo. Eles funcionam como o Tesouro Prefixado que temos no Brasil, mas com prazos menores. No site do Tesouro Direto Americano os títulos são vendidos através de leilões. O retorno do investidor é a diferença entre o valor nominal (que você receberá no vencimento) e o preço com desconto definido no leilão. Os ETFs que investem em Treasury Bill se valorizam quando os preços dos Treasury Bill são ascendentes, ou seja, quando os juros estão em tendência de queda e por consequência o preço do Treasury Bill está cada vez maior por serem negociados com desconto menor. Se você investe em Tesouro Prefixado no Brasil ou se já leu meu livro sobre títulos públicos já entende essa dinâmica de “juros menores = preço do título” em alta enquanto “juros maiores = preço do título em baixa”

Treasury Note, também conhecidos como Note ou T-Note. Podemos chamar de “Notas do Tesouro”. Para esses títulos os prazos são de  2, 3, 5, 7 e 10 anos, sendo que a cada 6 meses os investidores recebem juros (fonte). Esse tipo de título lembra o título “Tesouro Prefixado com Juros Semestrais” que temos aqui no Brasil. A diferença é que lá fora existem muitos prazos de vencimentos oferecidos aos pequenos investidores. Quando você investe em um ETF que investe nos Treasury Note, você também recebe juros. Como o ETF investe em carteiras com títulos com prazos diferentes, eles conseguem pagar juros todos os meses. O dinheiro é depositado na sua conta na corretora americana onde você é cliente.

Treasury Bond, também conhecidos como Bond ou T-Bond. Em português seria “Títulos do Tesouro”. São títulos de longo prazo com vencimentos para 20 ou 30 anos (fonte). Quem investe nesse título também recebe juros semestrais. Como o prazo é muito longo, o juro tende a ser um pouco maior. Por ser um título muito longo seu preço tende a sofrer as variações mais fortes antes do vencimento. Também existem ETFs específicos que investem nesses títulos ou ETFs compostos por uma carteira com diversos títulos diferentes que incluem esses títulos. Se você já investiu em títulos públicos brasileiros de longo prazo, entende que os preços desses títulos sofrem fortes variações quando as expectativas sobre os juros futuros se modificam.

Floating Rate Notes, também conhecido como FRNs. Em português seria “Notas de taxa flutuante”. Lembra o título Tesouro Selic. É um tipo de título público recente nos EUA, pois só começou a ser negociado em janeiro de 2014 (fonte). Possui vencimento em dois anos. Também existem ETFs que investem nesse tipo de título público americano e você também recebe juros mensais.

Treasury Inflation-Protected Securities, conhecidos como TIPS. São títulos protegidos pela inflação. Os TIPS são indexados à inflação, a fim de proteger os investidores de uma queda no poder de compra de seu dinheiro. Embora a inflação nos EUA seja pequena e frequentemente os governos permitem que a inflação se eleve quando existe o objetivo de promover o crescimento econômico, principalmente depois de uma crise. À medida que a inflação sobe, os TIPS se ajustam no preço para manter seu valor real. Se ocorrer deflação o título é ajustado para baixo. Eles pagam juros semestralmente. Se você investe no título público Tesouro IPCA com juros semestrais, entende o funcionamento. Existem TIPS com vencimentos de 5, 10 e 30 anos e você pode comprar uma carteira de TIPS através de ETFs que investem nesses títulos.

Por qual motivo investir em títulos americanos?

Investir em títulos americanos, para nós brasileiros, é equivalente a investir em dólares com a vantagem de receber juros por isso, mesmo sendo juros baixos.

Como juro nada mais é do que um tipo de “prêmio pelo risco” quando emprestamos dinheiro, o juro pago por títulos americanos é pequeno já que o risco de o governo americano não pagar sua dívida é pequeno. Além de uma grande capacidade de recolher impostos (como vimos no início do artigo), o governo americano é o único que pode imprimir dólares.

Os treasuries muitas vezes são vistos por investidores estrangeiros como uma forma de realizar uma proteção em tempos de crise. Diante de uma crise local, a moeda local tende a perder valor diante do dólar. Em crises globais, os investidores entendem que a economia mais forte é a americana e que eles possuem melhores condições para uma recuperação rápida. Investir na moeda americana comprando títulos públicos americanos ou ETFs que investem nesses títulos é uma forma rápida e fácil de realizar esse tipo de investimento quando vivemos em outros países.

O problema é que durante as crises, decisões do Banco Central Americano sobre a redução na taxa básica de juros faz o preço dos títulos públicos subirem. Decisões de aumento dos juros fazem os preços dos títulos caírem. Isso faz a renda fixa ter um comportamento parecido com a renda varíavel.

Exemplo de investimento

O gráfico abaixo mostra a variação de preços de três ETFs que investem em tipos diferentes de títulos públicos. Com algo próximo de US$ 100 já seria possível investir em um desses ETFs.

Na linha azul temos o SHY que investe em Treasury Bond com vencimento de 1 a 3 anos. Este ETF paga juros todos os meses. O gráfico mostra que nos últimos 3 anos o preço deste ETF subiu 7,74%. Perceba que o preço do ETF é bem estável se comparado com os outros dois. Essa maior estabilidade no preço ocorre em ETFs que investem em títulos com vencimentos mais curtos. O ETF representado pela linha cinza investe em Treasury Bond com vencimento em 7 a 10 anos. O preço desse ETF valorizou 21,45% em 3 anos e se estabilizou depois da pandemia devido a queda dos juros nos EUA. Ele também paga juros mensais.

Já o ETF representado pela linha laranja investe em títulos com vencimentos acima de 20 anos. Sua valorização foi de 40,94% nos últimos 3 anos. Observe que no exemplo esses títulos chegaram a perder valor entre 2018 e 2019. Nesse tempo o governo americano estava aumentando os juros. Quando os juros aumentam, os preços dos títulos caem. Quando os juros caem os preços dos títulos aumentam. Em 2019 o governo parou de subir os juros. Você deve se recordar que foi um ano marcado por tensões entre EUA e China. Com a pandemia os juros básicos da economia despencaram de 2,5% ao ano para 0,25%.

O gráfico acima mostra a taxa básica de juros nos EUA. Observe que juros em alta produzem queda no preço dos títulos públicos e juros em queda produzem valorização dos títulos. Podemos ver que as crises produzem quedas nos juros por prazos longos. Agora na pandemia de 2020 tivemos queda dos juros para níveis equivalentes ao que tivemos na crise de 2008.

O gráfico acima mostra todos os pagamentos mensais de juros para quem possui o ETF que investe em títulos com vencimento acima de 20 anos que citei anteriormente. Observe que são poucos centavos de juros mensais. No momento em que escrevo esse artigo esse ETF pagou US$ 2,57 por ETF nos últimos 12 meses e pela cotação atual do ETF isso representa 1,61% de rendimento ao ano. Mas devemos considerar que além dos juros, o investidor ainda teria obtido um ganho de capital de 40% somente no último ano com a valorização do ETF gerada pela alta demanda por títulos americanos quando os juros pararam de subir em 2019. Perceba que se os juros voltarem a subir no futuro, esse título mais longo sofrerá perda de valor. Os ETFs que investem em títulos com vencimentos curtos ou flutuantes sofrem menos variações nos seus preços.

Sobre a rentabilidade de alguns centavos, parece uma rentabilidade baixa para o investidor de título públicos brasileiros, mas não podemos esquecer a desvalorização da nossa moeda.

Temos o costume equivocado de pensar que o dólar está cada vez mais caro. Não percebemos que a grande verdade é que a nossa moeda é que está valendo cada vez menos. O gráfico abaixo mostre o preço do real em dólares, ao invés do preço do dólar em reais.

Marquei alguns pontos aleatórios no gráfico. Veja que R$ 1 já custou US$ 0,64 em 2011. Em 2015 o nosso real só valia US$ 0,32 (perdeu a metade do seu valor em dólares). Agora em 2020 o real já está próximo de valer somente US$ 0,15. Então tente imaginar o que significaria ter sido dono de um ETF que investe em títulos públicos americanos que teria se valorizado em reais mesmo se não pagasse juros e mesmo sem qualquer valorização nos últimos anos.

Como mostrei, embora os ETFs de títulos públicos tenham uma rentabilidade pequena ao ano, o pagamento é em dólares, que tende a valorizar em reais. Além disso, os títulos públicos e ETFs que investem nesses títulos podem sofrer valorizações em dólares.

No gráfico acima temos na linha azul a variação percentual do preço (em dólares) de um ETF que investe em títulos de longo prazo. Na linha azul marinho temos a variação do preço do dólar em reais. Na linha vermelha temos a variação do preço em reais do mesmo ETF que podemos ver na linha azul, ou seja, eu multipliquei o preço do ETF que estava em dólares pelo preço do dólar em reais para descobrir quanto o preço desse ETF valorizou em reais desde 2011. Observe que o ETF valorizou 69% em dólares. O dólar valorizou 238% em reais e o preço do ETF em reais subiu 472%.

Isso significa que ao investir em ETFs que investem em títulos públicos americanos temos os ganhos mensais de juros em dólares, a variação do preço do ETF em dólares e a variação do dólar em reais. Quando temos a combinação de títulos públicos americanos valorizando e dólar valorizando, temos um ganho potencializado. O inverso ocorre se os títulos e o dólar ficarem mais baratos. Para isso existem ETFs que investem em títulos públicos americanos de curto prazo, que sofrem menos variações nos seus preços em dólares.

Dessa forma, embora o investimento em título público seja entendido como um investimento de renda fixa, a verdade é que para nós, brasileiros, ele representa um investimento de renda variável que depende do desempenho da economia americana (influencia no preço do ETF que investe em título público) e do desempenho da nossa economia (que influencia no preço do dólar em reais).

É importante destacar que os ETFs citados são apenas exemplos para ilustrar um artigo didático. Não se trata de recomendações de investimentos. Não invista sem entender o que você está fazendo e quais os riscos que você corre.

No meu livro sobre Como Investir no Exterior eu falo com mais detalhes sobre os principais investimentos que podemos fazer através de uma corretora nos EUA. Os ETFs que investem em títulos públicos são apenas um tipo entre centenas de tipos diferentes de ETFs que temos no EUA. O livro aborda investimentos em todos os principais tipos de ETFs de renda fixa e renda variável. O livro também fala sobre investimentos em ações de empresas americanas para ganho de capital e dividendos, além de investimentos em fundos imobiliários americanos. É uma ótima leitura para expandir o seu universo de possibilidades como pequeno investidor. Além de falar sobre os investimentos eu também apresento todas as ferramentas que utilizo. Para saber mais visite aqui.


Receba novos artigos por e-mail

Gostaria de receber atualizações do Clube dos poupadores gratuitamente por e-mail?

Esse artigo foi útil?