Para você que quer investir em ações de empresas preocupadas com questões ambientais e sociais segue aqui a resposta para a dúvida de uma leitora do Clube dos Poupadores.

“Gostaria de saber se é possível investir em empresas ambientalmente sustentáveis (não apenas no discurso) ou fortes em energias renováveis, ao mesmo tempo rentáveis e como fazer isto. Obrigada.”

Eu acho difícil ter certeza absoluta de que realmente estamos investindo ou consumindo produtos de empresas preocupadas com questões ambientais ou mesmo sociais.

Se você tem essa dúvida sobre “o discurso”, você já deve ter percebido que essa questão de sustentabilidade é muito utilizada pelos departamentos de marketing e propaganda das empresas. Muitas vezes “o discurso” só serve mesmo como argumento para criar uma diferencial para cobrar mais caro.

 

Para não ficar dependendo dos discursos, geralmente as empresas buscam algum tipo de selo ou de certificação.

No mundo dos investimentos também existem selos com pontuações para investimentos preocupados com fatores ambientais, sociais e de governança ou ESG (Environmental, Social and Governance).

Muitos investidores, além de avaliarem as questões financeiras que envolvem os investimentos, riscos e retornos, também estão avaliando o impacto que os investimentos causam na sociedade.

Não sei se realmente é uma preocupação com o impacto do investimento na sociedade ou com o impacto da sociedade no investimento, pois alguns estudos mostram que 95% dos investidores mais jovens (nascidos depois de 1980) estão interessados ​​em investimentos sustentáveis (fonte). Na próxima década mais de US $ 30 trilhões devem ser transferidos para esses jovens por herança. Isso os forçará a tomar decisões sobre investimentos com base em valores que seus país e avós não tinham.

Também existem informações sobre o fato de 88% desses investidores da geração millennials de alto patrimônio, estarem revendo ativamente o impacto (ESG) de seus investimentos. Além disso, 57% desses investidores tomaram a decisão de parar de investir ou se recusaram a investir em empresas por causa do impacto que os produtos ou serviços geraram na saúde e bem-estar das pessoas.

Entre os demais investidores existe o entendimento de que empresas que não se preocupam com essas questões podem ter suas vendas e lucros prejudicados no futuro por mudança no comportamento do consumidor. Também se acredita que essas empresas teriam maiores riscos de envolvimento em denúncias, escândalos e problemas com a sua imagem no futuro nas questões sociais, ambientais e de governança. Isso eleva os riscos de prejuízo.

No exterior já existe um tipo de classificação para investimentos tendo como base o ESG. As questões ambientais (environmental) envolvem a relação da empresa, produtos e serviços com as mudanças climáticas, emissões de carbono, uso de recursos naturais, poluição, resíduos etc. As questões sociais (social) consideram o impacto de produtos e serviços na saúde, segurança, treinamento, diversidade dos colaboradores, a relação das empresas com as comunidades e ações da empresa com relação a projetos sociais etc. A questão da governança (governance) trata da relação da empresa com seus acionistas, fraudes, corrupção, transparência, gestão etc.

Um exemplo de classificação é a da MSCI (fonte). Eles possuem uma pontuação de 0 a 10 que se transformam em uma escala de notas de classificação que vai de CCC (pior) até AAA (melhor).

Na figura acima temos a nota BB atribuída para o “EWZ” que é o ETF negociado na bolsa americana que investe nas ações mais negociadas da bolsa brasileira e que fazem parte do Índice Bovespa.

O EWZ é equivalente ao Índice Bovespa dolarizado. Então podemos dizer que se você investe em um ETF como o BOVA11 ou investe em qualquer fundo de ações brasileiro que tem o objetivo de refletir o desempenho do Índice Bovespa, você está fazendo um investimento com nota “BB” com relação a questões ambientais, sociais e de governança.

Essa nota BB tem como base uma pontuação de 3,56. Essa pontuação varia de 0 a 10 e a nota 3,56 está na faixa BB. A ideia do desenvolvedor deste “selo” é medir a resiliência das carteiras dos ETFs e fundos aos riscos e oportunidades de longo prazo decorrentes desses fatores ambientais, sociais e de governança que estão sendo demandados por parte da sociedade.

Como disse, se as classificações do ESG variam de melhor (AAA) para pior (CCC), a situação das principais ações que fazem parte do Índice Bovespa não é das melhores.

Uma nota mais elevada representa investimentos em ações de empresas que já apresentam ou tendem a apresentar melhora na gestão de questões ambientais, sociais e de governança. Para o investidor, essas empresas podem ser mais resistentes a eventos negativos, notícias, crises, denúncias e perda de valor relacionado a essas questões de ESG.

O gráfico acima mostra que no ranking global de zero (pior) a cem (melhor) estamos na posição 11. Já entre os países emergentes estamos na posição 30. O outro gráfico mostra que 15% das ações que fazem parte do Índice Bovespa possuem nota CCC e 13% notas B (as piores notas) e somente 16% com notas AA e 2% nota AAA (melhores notas).

Logo acima temos a nota BBB do ETF que investe em ações de empresas de países emergentes. Essa nota BBB resulta de uma pontuação de  4,50 (de 0 a 10), ou seja, uma nota melhor do que a recebida pelo ETF que representa o Índice Bovespa. Os 10 principais países/regiões são na ordem: Hong Kong, Taiwan, Coreia do Sul, Índia, China, Brasil, Rússia, Arábia Saudita e Tailândia.

Logo acima temos a nota de ESG atribuída para o ETF de código IEFA. Esse ETF investe em ações de empresas que estão em países desenvolvidos na Europa, Extremo Oriente, Austrália e outros países excluindo os EUA e o Canadá. Esse ETF recebe nota A por ter uma pontuação de 7,03 de 10.

Acima temos a pontuação ESG para investimentos em ETFs que seguem o principal índice da bolsa americana que é o S&P500 (que representa as 500 principais ações do mercado americano). Essa nota A resulta de uma pontuação 6,64.

 

Existem ETFs que recebem nota AAA por investirem em ações de empresas comprometidas com o ESG. Como exemplo temos o ETF de código FAN que investe em empresas de energia eólica em diversos país. Existe o ETF ENZL que investe em ações de empresas da Nova Zelândia. E o ETF NORW que investe em ações de empresas da Noruega. Todos com nota AAA.

Por curiosidade eu produzi um gráfico mostrando o desempenho dos três ETFs que possuem nota AAA e o EWZ que representa a bolsa brasileira dolarizada e que geralmente os investidores estrangeiros utilizam quando querem investir no Brasil.

A linha laranja representa a bolsa brasileira. A linha cinza que representa o ETF de eólicas (FAN) foi o que apresentou o melhor desempenho entre o início de 2020 e setembro de 2020, mesmo com a crise gerada pela pandemia.

Como podemos ver, o ESG como uma das formas de avaliar os investimentos está muito desenvolvida no exterior. No Brasil o tema está só começando e não sabemos se realmente aqui as pessoas estão preocupadas com isso.

Ainda não conheço uma ferramenta brasileira que apresente esse tipo de avaliação que encontramos em ferramentas estrangeiras. O máximo que podemos fazer aqui é acreditar nas informações que as próprias empresas produzem para os investidores sobre essas questões.

Então eu entendo que se você tem esse tipo de preocupação, uma solução imediata seria aprender a investir no exterior. No meu livro sobre Como Investir no Exterior eu apresento todas as ferramentas que utilizei para escrever esse artigo e que permitem avaliar o ESG. O livro também ensina a investir em ETFs de diversos países do mundo.


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